PEQUENAS HISTORIAS





domingo, julho 11



QUARTETO


- Mestre, já dei voltas, pedi, implorei e não há maneira de arranjar a corda.
As palavras saíram com sofreguidão mas isso não pareceu perturbar o homenzinho escanzelado, baixo e calvo que naufragava num mar de papéis, latas vazias, pedaços de pano, aparas de carvão, crucifixos de madeira.
- Não faz mal - disse ao mesmo tempo que encolhia os ombros - Se não consegues substituir a corda do violoncelo, paciência. Reescrevo a tua parte. Já não temos muito tempo. Provavelmente vou transpor as notas graves para duas oitavas abaixo de modo a dispensarmos a corda que se partiu. Mas isso significa que tens de ginasticar os dedos. Algumas passagens… com esta humidade…
O violoncelista antecipou-se ao fim da frase:
- Eu consigo. Não se preocupe Mestre. Trate da composição que eu ocupo-me do resto. Temos lenha e cigarros uma oferta dos polacos da Camarata C. No campo andam todos entusiasmados com o concerto. Os homens nem falam de outra coisa. Até os guardas estão curiosos.
Também ele parecia transformado. Apenas o Mestre estava de tal modo absorvido por preocupações que nem tinha tempo para usufruir a excitação do acontecimento. Atraída pelo lixo, uma ratazana esgueirou-se entre as pernas da mesa e o Mestre falhou por pouco um pontapé. Havia toda uma logística para cumprir e da sua boca saíram as instruções mais urgentes:
- Está-se a acabar o papel e preciso que me agucem os bicos dos carvões porque a partitura começa a ficar borrada. São necessárias pelo menos 12 folhas para transcrever a parte do violoncelo.
O músico-ajudante pôs-se de imediato em acção:
- Dê-me uma hora e o assunto fica resolvido. Mas tem de ser papel pardo Mestre. Vou procurar do cinzento claro. Quase nem se nota a diferença.
Antes de transpor a porta da camarata deu meia volta e perguntou ao homem que tanto admirava:
- Já se decidiu se vai dar um nome à música?
O mestre levantou a cabeça com um sorriso iluminado:
- Sim. Vai chamar-se "quarteto para o fim dos tempos."


A CÁRIE


Por causa da cárie, a D. conceição teve de interromper a quinta feita e ir a Lisboa. Tinha tomado um antibiótico, por auto-medicação, apesar dos protestos da filha, de 22 anos. Com dores ou sem dores , era preciso regressar ao restaurante Marcos a tempo de ajudar a servir as mesas. Às 12,15 horas ainda tinha seis pessoas à frente na espera para o médico. Ligou o telemóvel e pediu para darem o recado ao patrão: que ela se ia atrasar. Um alívio por não ter sido ele a atender directamente. Regressou com a boca dormente, a ordenar pensamentos. Porque raio tinha de se justificar? Logo ela que nunca faltava? Será que não tinha direito de ir ao médico? Se com dores de dentes trabalhava pouco, e mal, devia tratar-se.
Quando entrou , ele deslizou o olhar e disse secamente "não é preciso conversas. Vá ajudar a São." Quis dizer a resposta previamente ensaiada, mas os musculos da face não ajudavam: a anestesia paralizava os sons. Saiu um vomitado de palavras sem nexo. Envergonhada foi mudar a camisa e vestir o avental.



Posted by Pequenas Histórias 12:46 ||







ALMOÇOS GRÁTIS



Ao autografar mais um livro deparei-me com um homem bem aparentado. Dedicou-me uma atenção calorosa e vários elogios de modo a prolongar o acto de comunhão do escritor com o leitor muito para além do razoável. No momento de ceder o lugar na fila à pessoa seguinte, insinuou um engodo previamente escrito em inglês. Continuei a assinar exemplares mas ia-o vendo a circular pela livraria com uma autoconfiança que me marcava como caça grossa em coutada fechada: eu era uma estrangeira, insuficientemente célebre para beneficiar de protecção de um círculo social, sozinha, com um quarto de Hotel e uma sede editorial como âncoras de referência. A sessão ia-se aproximando do fim porque na Suécia a hora de recolher soa precocemente na cabeça das pessoas. Expliquei rapidamente a situação ao único jornalista que conhecia, pedindo-lhe para me acompanhar no final, de braço dado, numa manobra estratégica de diversão. O embuste funcionou.
Passado pouco tempo, compreendi que ao livrar-me de um problema tinha arranjado outro ainda maior. Sempre detestei a frase " não há almoços grátis". Fiquei a detestá-la ainda mais ao compreender como era verdadeira.


Posted by Pequenas Histórias 12:40 ||







A SAÍDA



A queda na banheira foi a queda do mundo. Nunca mais recuperou completamente da perna esquerda. A preparação e o esforço de uma saída à rua deixaram de compensar os resultados. O acordo com o rapaz do minimercado resolveu a logística da mercearia, do talho e da farmácia e, aos poucos, a vida foi-se concentrando em três assoalhadas, no telefone e na televisão. A visita dos bombeiros, rapazes novos que a vinham buscar para a fisioterapia e a traziam de volta, tornou-se consequentemente um acontecimento festivo. Às terças e quintas, D. Vitorina começava a arranjar-se logo de manhã de modo a estar convenientemente aprumada para a ocasião. Já tinha ganho a confiança dos bombeiros, interpretando anedotas de outros tempos e revelando uma graça que ela própria desconhecia. Hoje era o dia de avançar outro passo. Uma velhota meio inválida e doente nada tinha a perder. Na viagem de regresso, disse-lhes que queria atravessar a cidade com as sirenes e as luzes da ambulância ligadas no máximo. Ao entrar finalmente na sua rua, com o aparato de um Presidente, D. Vitorina esforçou-se por manter a compostura e por domesticar o riso. Um brilho clandestino enchia-lhe o rosto. Teve de apertar os lábios com força.


Posted by Pequenas Histórias 12:38 ||







A CORRELAÇÃO



Estava profundamente irritado:
"- Se a senhora não faz nada apresento queixa à polícia. Não pode simplesmente despejar o animal na rua e deixá-lo sozinho até anoitecer: isso é de uma total irresponsabilidade. Hoje o miúdo quase foi mordido e eu não vou proibir o meu filho de ir brincar só porque a senhora não toma devidamente conta do animal."
Isto saiu de rajada. Do outro lado da porta a mulher apenas pedia desculpas, reconhecia que eu tinha razão, justificava-se com o facto de ter o cão há pouco tempo, sorria.
Quando o interlocutor desarma perde-se o incentivo da fúria. Reparei que estava mais bonita, nos últimos meses, como se tivesse rejuvenescido. Talvez "mais arranjada" seja a expressão justa para uma mulher na casa dos quarenta: independente, a recuperar algo, com convicção. Nesse momento, arrependi-me de lhe bater à porta e fez-se luz na minha cabeça: é evidente; divorciou-se.
Antigamente o bairro tinha uma azáfama animada e viam-se casais jovens por todo o lado. Apareceram os filhos e perdeu-se um bocado da vida colectiva. Depois os divórcios dizimaram famílias de alto a baixo. Agora há conflitos por causa dos cães e dos gatos


Posted by Pequenas Histórias 12:37 ||







O DOUTORAMENTO



Temos de enviar um cartão de felicitações ao António Pinto; ele tem bons contactos. Quanto é que vai ganhar como Presidente da Entidade Reguladora? Para aí 600 ou 700 contos, mais carro e chauffer. Está bem que é um cargo político e daqui a uns tempos vem-se embora. Mas estas coisas funcionam como um trampolim: salta para um cargo ainda melhor. Vais ver: já nem regressa à Faculdade. A mulher dele é que deve andar delirante. Imagino… a estas horas já gastou o ordenado do marido no shopping. E aquela de comprar um piassaba por 22 contos? Ahnnnn…? 22 contos e nem era de platina. E o ano passado desfizeram-se da mobília do quarto e compraram tudo de novo. Até mudaram os cortinados!! Vê-se mesmo que esta gente não faz a mínima ideia do que é viver com dificuldades. Eu acho-a cada vez mais snob . Pelo menos o António trabalha no duro e chega a casa às tantas.
(…)
Tens mesmo De acabar o doutoramento. Já não aguento mais.


Posted by Pequenas Histórias 12:35 ||







O CÓDIGO DE HAMURABI



"Se respondemos a provocações com novas provocações, estamos a abrir caminho para espirais de violência que nunca se sabe como vão terminar. O fundamento da vida em sociedade é negar o principio do "olho por olho e dente por dente", o individualismo selvagem e as represálias cegas."
A mulher era uma âncora.
"Ter um bocado de calma e tolerância são conquistas civilizacionais. Porque é que não tens uma conversa com o vizinho e lhe chamas a atenção para a sua conduta. Enfrentar uma situação é isso. Não é vingares-te, furando os pneus do carro só porque foi ele quem começou. Esse facto não te dá legitimidade para responderes no mesmo tom."
O marido percorreu os canais sintonizados entre o um e o cinco e reconheceu a sabedoria daquelas palavras. Como em outras ocasiões, a opinião era certeira e ajudava-o a sair das suas obsessões. Qual a vantagem de acrescentar mais conflitos aos problemas que já tinha no emprego? Para quê agravar uma situação que podia desanuviar-se com um gesto de coragem e boa vontade.
O problema é que não conseguiu adormecer naquela noite. O assunto queimava-lhe o repouso, bloqueava a porta dos sonhos. Às três da manhã levantou-se sem fazer barulho. Vestiu-se e saiu do prédio. Com uma sensação de alívio despejou a lata de ácido que tinha comprado no tejadilho do automóvel do vizinho.

HOSPITAL


A tarde chupa grilos de madeira, o sol separa-se em duas arestas, uma metade flores brancas, outra metade fuligem. Tirem-me as tesouras do braço quero-me levantar tenho muito trabalho para fazer não quero estar deitada. Esta casa não é a minha casa; esta menina que diz ser a minha filha não é a minha filha; esta mobília não tem cor; estes passos não têm querer.


Posted by Pequenas Histórias 12:35 ||







REFERÊNCIA CIRCULAR



O tema do programa era a acção sobre a acção; as referências uma série de pensadores cujas teorias sublinhavam o papel dos dispositivos sociais que operam um constrangimento sobre o universo de possibilidades dos indivíduos, seja pela redução do seu leque de escolhas seja pela criação de automatismos nos comportamentos.
"Dúvidas quanto a esta matéria?" - perguntou a professora ao mesmo tempo que recolhia os acetatos.
Houve um momento de silêncio e um entreolhar recíproco. Do meio da sala surgiu um braço no ar acompanhado de um sorriso: "o facto dos alunos poderem apresentar as dúvidas no final da aula deve ser considerado um constrangimento sobre as possibilidades de escolha ou um automatismo do comportamento?"


Posted by Pequenas Histórias 12:35 ||







PROGRAMAÇÃO TARDIA



- "As nossas conversas estão-se a repetir".
A resposta veio no mesmo tom:
- "Estão-se a repetir porque tu és incapaz de reconhecer evidências e não admites ser criticada. Tomas qualquer observação como um ataque e assim é difícil conversar".
Era sexta-feira, as crianças estavam deitadas, a louça lavada, a cozinha arrumada.
- "Tudo se resume a uma questão de culpas."- A frase foi acompanhada do gesto de levantar pontuando o desfecho de duas horas de discussão. Ao entrar na casa de banho a mulher sabia porém que faltava a última cena: ela perguntava se o marido se vinha deitar; ele respondia que não estava com sono, ficava vidrado na televisão absorvendo concursos, publicidade, noticiários, entrevistas, resumos desportivos, filmes e tele-vendas , tudo até liquidar pela exaustão qualquer hipótese de contacto físico naquela noite. A política era a continuação da guerra por outros meios.
Saiu da casa de banho já em pijama. Aconchegou-se no sofá com a manta de lã e perguntou:
- Que filme é que dá hoje?


Posted by Pequenas Histórias 12:34 ||







GUELAS



- "Não vale fazer ganso"- repetiu pela terceira vez o líder da oposição.
- " Não há ditos!" - respondeu o Primeiro Ministro com a sensação de estar atrasado.
- "Abafanços só com três toques" - disse o Ministro da Defesa, seguro da pasta.
- " Papa não come olho de boi" - o representante das esquerdas minoritárias conseguia deste modo reposicionar a questão.
No dia seguinte, o Jornal Público, a RTP2 e a TSF abriram o noticiário com a mesma singular manchete:
" Questões procedimentais dominam debate".


Posted by Pequenas Histórias 12:31 ||







ESTIGMATISMO E SISTEMA MONETÁRIO



Ao meu lado o velhote pagou o café com cinquenta cêntimos e deu uma moeda de dois Euros de gratificação ao empregado. Estava ao balcão e não parecia propriamente um representante das classes ociosas, mas antes um reformado para quem a mudança do sistema monetário coincidira infelizmente com o agravar do estigmatismo e da esclerose. Discretamente tentei avisá-lo de que acabara de dar 400 escudos de gorjeta por uma bica servida ao balcão e o rosto esticou-se-lhe até as sobrancelhas arranharem as rugas da testa. As suspeitas estavam certas. Uma revoada de energia tomou-o de feição e acordou-o de tal forma que até deu ideia de aumentar em altura. Agilmente deu meia volta e gritou:
-" Sr. António, não se esqueça: está pago até ao final da semana".


Posted by Pequenas Histórias 12:30 ||







TOM DE VOZ



"Com tanta miséria e maldade, as atrocidades que já foram cometidas, a fome, com isso tudo, como pode haver um Deus no Mundo? Quando penso nos acontecimentos passados com os judeus no tempo de Hitler, na Sida em Àfrica até me revolta ouvir falar em Deus. Desculpa o tom de voz mas fico emocionada. Tamanha crueldade elimina qualquer crença. Nem quero ouvir falar disso. Deus é um expediente que leva as pessoas a aceitarem o inaceitável, a conformarem-se: o pretexto para a resignação. Deus o tanas, isso é que é."
Sara bloqueava em três temas : Deus e a religião, maridos que tratam mal as mulheres; pessoas que mentem deliberadamente. Não era uma rapariga doce.


Posted by Pequenas Histórias 12:28 ||








GASPAR



"Pavão" gostava de se sentir superior. Como era completamente desprovido de carisma, autoridade e charme, cada pose transformava-se numa manifestação de antipatia e hostilidade pessoal. Adquiriu várias alcunhas no bairro, todas inventadas por mim: "Pavão", "caga-lume", "no-trespassing" e acho que o homem adivinhava o que pensavam dele.
Adiei para o dia seguinte, para a semana seguinte e para o mês seguinte a obrigação semi-profissional de o abordar na qualidade de administradora do prédio, mas aproximava-se a reunião de condomínio e tinha de ser. Devido à popularidade das alcunhas, nem sequer sabia o nome verdadeiro pelo qual o devia tratar. Interroguei a este respeito o velhote da papelaria, pessoa informada e que não se metia na vida dos outros.
- "Sabe quem é o senhor do sexto direito? O que costuma passear um cão grande, lobo-de-alsácia salvo erro, de pelo grisalho?"
- Ah o Gaspar! - reconheceu de imediato o velhote - Olhe passou agora mesmo para baixo. Deve estar no parque.
Dito e feito,a oportunidade era agora ou nunca: acostava ao parque e evitava ter de lhe bater à porta. A informação revelou-se certeira. Respirei fundo e recapitulei: conversa profissional, posição de administradora, não mostrar antipatia, tom civilizado. Acho que a minha entrada cumpriu estes requisitos:
- "Senhor Gaspar, muito boa tarde, sou actualmente administradora do condomínio e preciso de falar consigo para ver se resolvemos a questão das quotas em atraso antes da reunião do prédio cuja convocatória certamente já recebeu."
O homem cerrou a face. Senti a superioridade a trepar-lhe pela espinha, estudando-me de cima a baixo, fechado em copas. Detectei também uma sombra de indignação e de estranheza no olhar.
Mau, mau. Manter a compostura: " Senhor Gaspar, mandei já fazer o orçamento para as obras na cobertura do seu lado do prédio que lhe têm causado as infiltrações e será dado andamento ao processo na próxima administração. Mas o senhor tem de regularizar a situação financeira das quotas em atraso que somam…"
Neste preciso momento, o Pavão voltou-me as costas e deixou-me a falar para os cardumes do Padre António Vieira. Vejo-o dar uns passos e a gritar para o cão:
- Gaspar! Já aqui!


Posted by Pequenas Histórias 12:28 ||









sexta-feira, julho 9

OLHAR PARA AS COISAS



"Os tipos falam muito para depois darem nisto, já viste?" - o homem de fato italiano apontou com a mão direita para o edifício - " Quando lhes soa a dinheiro vão logo atrás. Quem diria que o Cassiano se viria a transformar num arquitecto do regime: colado ao Presidente da Câmara, a fazer estas obras de propaganda monumental, a participar nas entrevistas… nas inaugurações.. a fazer o que lhe mandam: um cão com dono…"
Ao seu lado, o homem de cabelos grisalhos coçou o nariz. Sem olhar para o interlocutor, sem desatar as mãos, retorquiu:
- Isso depende do ponto de vista.
- Qual ponto de vista? - a voz trazia também a distinção de um corte italiano. Ao fazer esta pergunta virou a face. O outro continuou a olhar em frente:
- O ponto de vista! Repara bem no edifício. Não notas nada estranho?
- É uma obra vagamente monumental, feita com bons materiais, paga pela Câmara. O que há mais para ver?
- … Repara na entrada: a cor verde alface. Depois aquele encadeamento de arcos ao nível do passeio que fica atarracado logo no primeiro andar com os varandins em meia lua. Os varandins têm a ornamentação de pedra com temas florais da IIª dinastia- mesmo ao gosto dos antiquários. Parece tudo muito bonito mas, para aquela escala, devia levar logo um telhado em cima. Não percebes: o edifício está concebido como se fosse uma casa de piso térreo e sobrado. Simplesmente depois o prédio continua e sobe, sobe , sobe para só acabar lá no alto. É uma paródia. O homem está gozar à grande, como se encavalitasse um monumento na casa do senhor da aldeia. E depois repara na parte de cima: um torreão enfeitado com chaminés algarvias. Não vês que a obra é um desafio? Uma caricatura do Presidente da Câmara?
O homem de fato italiano franziu a testa:
- Essas observações até podem ser verdadeiras mas só os entendidos conseguem descortiná-las. Para o povo trata-se simplesmente de mais uma inauguração.
Desta vez, o admirador da obra olhou de frente para o outro:
- Não se trata de ser entendido: trata-se de ver. Põe os óculos!


Ana C.


Posted by Pequenas Histórias 21:12 ||









quarta-feira, julho 7

DISSOLUÇÃO JÁ!


Para a dissolução utilizamos um bécher pequeno com 10 a 15mL de água destilada da oposição. Aquilo que vai ser dissolvido deve primeiro ser triturado até se obter uma saturação pública. Depois, deixa-se em repouso para perceber bem a sedimentação. Usando um bico de gás e uma tela de amianto evapora-se então o dissolvido, na cápsula (1), até a secura: deve ficar sempre com menos de 30% de acetatus eleitoral (2). Na fase final, a chama é abaixada para evitar salpicos, evitando perda de substância ou acidentes. Ao se esfriar a solução, observou-se o desaparecimento do precipitado. Conclusão:
Este é um caso não muito comum, pois com o aquecimento da dissolução, a solubilidade diminuiu.

Notas:
(1.) cápsula de porcelana seca e tarada
(2) acetatus eleitoral , quando o status é de sódio usa-se a sigla de coligação: CH3COONa.3H2O

Nuno


Posted by Pequenas Histórias 13:03 ||









terça-feira, julho 6

EM TRIPLICADO



"Médico, 28 anos, em serviço no Ultramar, procura senhora para trocar correspondência. Resposta ao nº 3105 deste jornal."
O anúncio passou de uma carteira para outra do anfiteatro da Faculdade de Letras, curso de Línguas e Literaturas Românicas. Aquele apelo, vindo das fronteiras africanas, divertia e excitava as universitárias pois elas sabiam muito bem qual era a "correspondência" pretendida pelo homem. Estavam suficientemente viciadas em análise literária para deixar passar engodos destes. Ainda por cima, a rusticidade e o exotismo da palavra "Ultramar" sugeria um mundo de sexo sem civilização.
Para uma plateia de raparigas desprovidas de experiência, a leitura deste género de anúncios proporcionava uma estranha amálgama de sensações: por um lado divertiam-se com o ridículo da situação e com o desespero dos heróis da catinga; por outro, as três linhas a "procurar senhora" soltavam a mais bravia imaginação.
Paula teve a brilhante ideia de transcrever o endereço. Como não tencionava arriscar a pele sozinha, pediu ajuda às amigas do grupo de estudo para darem uma colaboração. Era excitante, divertido e até podiam revezar-se por turnos.
Iniciaram assim a fase epistolar. Uma vez por mês recebiam correspondência; uma vez por mês arquitectavam a resposta.
Quando o militar solicitou o envio de uma fotografia sobrevieram as discussões. A fotografia era uma maneira de consolidar terreno, espécie de proto-compromisso, e as universitárias tiveram de fazer um sorteio pois não chegavam a acordo sobre quem devia ser a eleita. As rifas ditaram o envio de uma imagem de Joana, a meio corpo, preto e branco.
A partir daí as narrativas ganharam intimidade: o médico era um excelente narrador; revelava sentido de humor; falava de um mundo selvagem e romântico.
Do outro lado do Oceano as universitárias acrescentavam mais parágrafos e as cartas começaram a ocupar oito e nove páginas. Não raras vezes, tornou-se necessário um trabalho final de revisão e edição para que todos os pormenores batessem certo. Nessas alturas, despontavam sentimentos de culpa e surgiam dúvidas sobre a moralidade do jogo.
Quatro meses após a recepção da fotografia, o médico anunciou que vinha de licença a Portugal. Terminava a pedir um encontro.
As coisas tinham ido longe demais e agora as raparigas só descortinavam uma saída decente: comparecer e contar a verdade.
No dia aprazado houve um rodopio de batom, pó de arroz e cabeleireiro. Quando se encontraram na Brasileira do Chiado, olharam entre si surpreendidas pelo facto de terem todas pensado o mesmo. O médico chegou atrasado, causando um franco impacto pois superava as melhores expectativas. Apresentaram-se com embaraço: Paula, Joana e Sílvia. No entanto, o homem não pareceu estranhar o milagre da triplicação. Joana fez de porta voz. Começou por pedir desculpa e entrou nas explicações. Foi interrompida. O médico desenhou um semicírculo com o braço e impôs silêncio. Depois, tirou do bolso três maços de cartas presos por elásticos:
- " A minha única dúvida é identificar as autoras das outras cartas que me foram enviadas: as cartas anónimas. Tenho aqui três caligrafias diferentes: por palpites diria que esta é da Joana, esta da Sílvia e esta da Paula".

ANA C.


Posted by Pequenas Histórias 22:03 ||













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