PEQUENAS HISTORIAS





domingo, julho 4

O ASSESSOR



Deslocou-se até ao rebordo da janela e espreitou para a rua através de uma fresta das cortinas. Desde o fim do almoço era a terceira vez que repetia este gesto sempre com o cuidado de não ser visto por quem observasse do lado de fora. Aparentemente nada de anormal. Era segunda-feira e os transeuntes circulavam sem parar em frente às casas e nenhum dos carros estacionados tinha ocupantes. Olhou para o tecto com a intenção de localizar o local onde teriam posto as escutas mas desistiu de vasculhar os cantos novamente com o escadote: lidava com profissionais.
O telefone interrompeu a espera. Deixou-o tocar durante uns tempos e, quando atendeu, do outro lado perguntaram pela Mafalda. Era obviamente engano. A seguir veio a chamada verdadeira. Conforme planeado o Presidente da República chamava-o para estar presente na audiência aos dirigentes dos partidos políticos. Vida de assessor é mesmo assim: não há horários, nem fins de semana, nem feriados. Abandonou a moradia pela porta das traseiras penetrando na área protegida do jardim onde se viam romanzeiras, ginginhas do rei e jacarandás enquadradas por uma sebe de ligustro. Circundou a sebe, passou pelo passeio estreito de cimento, do lado esquerdo, e deu duas voltas antes de entrar de novo na moradia. Colocou os óculos. A placa na entrada dizia: "Lar dos reformados da Assembleia da República e dos Serviços da Presidência".

NUNO


Posted by Pequenas Histórias 08:24 ||







O CORONEL



Afinal o Coronel não se tinha esquecido da ocasião: 24 Novembro, 18 horas. Vestira o fato número dois, reservado pelos militares para comemorações solenes e funções sociais e ostentava no peito um jogo colorido de medalhas ganhas durante a guerra. Com a frase " os senhores é que são os jornalistas?" - mostrou de rajada quem conduzia as operações e qual era o estatuto dos visitantes.
O fotógrafo bateu os primeiros flashes com sugestões para o comandante se movimentar. Os enquadramentos revelavam um homem corpulento com pele macilenta e barba concentrada na zona do queixo que lhe dava um ar de Maquiavel aboletado pelo álcool. Devia ter à volta de cinquenta e cinco anos embora não se notassem rugas no rosto. Os olhos encavavam-se na face criando uma faixa de penumbra que tornavam o ser humano impenetrável. Depois de posar três vezes, o general decidiu regressar à secretária e dar por encerrada a fase das fotos.
A jornalista esticou então o braço e carregou na tecla do gravador lançando o olhar no confronto. Prendeu o interlocutor para mostrar que não se deixava intimidar e depois largou a primeira pergunta:
- Senhor coronel: pode dizer-nos quando é que tenciona dar o golpe de Estado?

ANA C.


Posted by Pequenas Histórias 01:35 ||









quinta-feira, julho 1

COMO NUM FILME



Como num filme: mudo-me para um apartamento novo e no meu piso há uma única inquilina, uma mulher divinal, uma beleza grega sozinha com a filha de seis ou sete anos. Ora o que é que um homem solteiro e disponível há-de pensar? pensa: comprei uma casa espartana (um T0) mas saiu-me o mito de Helena em compensação. Inevitavelmente um dia destes acaba-se-lhe o azeite. E se não acabar o azeite há um problema na instalação dos fusíveis, ou há uma fuga nas torneiras ou perde o saca-rolhas nas mudanças: qualquer coisa, não interessa. O que interessa é que me vai bater à porta e ultrapassamos a fase das saudações respeitosas e da procura de pontos focais para desviar os olhos no elevador. Um começo.
Em última análise acaba-se a mim o azeite.
Fui desenvolvendo este guião e acrescentando adereços e efeitos especiais. Quando estava preparado para a rodagem descobri que a minha Helena tinha afinal um amante e um esquema. Como as más notícias caem das cerejeiras eis que reconheço o cara do homem através de fotografias que me lembro de ver nos jornais: um traficante de armas, de meia idade, célebre por causa de negócios com a Sociedade Portuguesa de Explosivos e por não respeitar o embargo de armas para o Irão. Tinha logo de ser um traficante de armas! Devem existir três ou quatro indivíduos dedicados a este negócio em todo o país - três ou quatro para uma população de dez milhões de habitantes - e sai-me prontamente o joker na primeira vasa.
Quem me manda vir para um T0 com uma assoalhada em formato de ringue de patinagem e uma Kitchnette sobre o comprido? Quem compra estas casas? - Solteiros, divorciados, divorciadas, gente em transição para algum lugar, gente com esquemas. Agregados familiares unicelulares é a conversa da construção civil para explorar o "core business". Portanto o meu acaso tem uma probabilidade associada: a probabilidade de encontrar uma Helena com trajectos complicados. E só reparo na explicação racional da oferta e da procura do mercado imobiliário quando as esperanças batem no fundo. Sempre a mesma coisa: a desilusão a empurrar-me para a objectividade.


Nuno


Posted by Pequenas Histórias 17:54 ||







HAIKU da RECEITA



- "A verdadeira felicidade é química" - disse o paciente ao mesmo tempo que a psiquiatra colava o selo de autenticação na receita de antidepressivos.
A médica levantou os olhos dos óculos e respondeu-lhe oblíquamente:
- "A verdadeira felicidade é conseguir lidar com a alegria e com a tristeza de forma equilibrada".
Opinião diferente tinha a mensagem do bolinho chinês: "felicidade é o momento em que acreditamos que o destino lança os dados a nosso favor".


Nuno


Posted by Pequenas Histórias 00:16 ||









quarta-feira, junho 30

1,2,3: EXPERIÊNCIA



Para ver no que é que dá. Vamos passar a contar com colaborações. Por enquanto os convidados estão reticentes e espero que se convençam que o blogue não morde e pode até ser divertido. A ideia é ir caminhando no sentido de transformar este espaço num blogue colectivo com maior taxa de actividade , mas mantendo o formato de pequenas e curtas histórias, condição para a sua sobrevivência. Um agradecimento desde já ao NUNO que se dispôs a participar nesta experiência e certamente trará outro estilo e outra imaginação. Sem compromisso , claro.


Posted by Pequenas Histórias 01:57 ||









terça-feira, junho 29

O ARQUIVO



Sylvie apaixonou-se por um país em extinção. As viagens turísticas evoluíram para peregrinações culturais, as peregrinações transformaram-se em inquéritos antropológicos e estes em trabalho de campo sistematizado.
Já tinha um bom portfólio de entrevistas gravadas quando tomou a decisão de escrever a dissertação de doutoramento sobre o tema "Portugal e a revolução".
O orientador, um académico da Universidade de Grenoble, dissuadiu-a porque "já havia muita gente a estudar o assunto e era uma matéria demasiado generalista". Mas Sylvie tinha o defeito de não saber esperar: quando desejava alguma coisa não conseguia simplesmente esperar. Por sensatez decidiu aguardar três longos dias antes de bater de novo à porta do académico com uma contraproposta. Desta vez nem deu hipóteses. Anunciou: Vou escrever a tese sobre as campanhas de dinamização cultural feitas pelos militares durante a revolução. Ali estava: um tema específico, singular no contexto europeu, inexplorado, antropológico, original até à raiz.
Obteve luz verde e dirigiu-se rapidamente para Paris com o objectivo de consultar os arquivos da UNESCO, embora o orientador tivesse dúvidas quanto à utilidade desta deslocação. Atendeu-a uma arquivista que não tirou os olhos da mochila com que se apresentou à consulta. Sylvie imaginava-a como um muro de betão interposto entre ela e os seus objectivos, uma daquelas guardiãs do templo para quem todos os leitores são uma maçada. Obteve respostas enviesadas e desanimadoras, como se a sua pesquisa fosse uma trivialidade de senso comum: "sim: temos aí muitos dossiers e estatísticas"; "claro: há sempre campanhas culturais a seguir às revoluções: é normal", "Portugal também! Não é diferente dos outros países".
Depois de preencher dois formulários e uma carta ao Director a arquivista conduziu-a às estantes.
Aquela burocrata não tinha a menor ideia do assunto. Sylvie imaginou-a deslocada entre os proprietários de pequenas courelas, entre os pastores sem emprego agarrados ao tabaco artesanal, sem sensibilidade para as histórias das velhas sobre a descoberta conjunta da roupa interior feminina, das pensões de reforma e das primeiras letras. Seria incapaz de viver num mundo menos asséptico do que o daquelas prateleiras, de suportar a poeira levantada por motorizadas com o tubo serrado, o insólito dos burros de carga ao lado de Mercedes cor de alperce.
Pararam junto a uma avenida de estantes com cerca de 60 metros de comprimento, cobertas com cinco prateleiras de livros de ambos os lados. A um canto estava um escadote. A bibliotecária-arquivista fez de cicerone:
- Aqui está: campanhas culturais e campanhas de alfabetização. Estão indexadas alfabeticamente por países: nestas primeiras estantes começa-se pelo E, depois vem o F e por aí adiante até ao Z. Nas filas anteriores temos as estantes dos países de A até D. Tudo campanhas a seguir às revoluções: um quilómetro e meio de estatísticas e relatórios. Mais ou menos.


Ana C.


Posted by Pequenas Histórias 01:07 ||













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