PEQUENAS HISTORIAS





sexta-feira, junho 25

HOMENAGEM à CONFERÊNCIA DE IMPRENSA



Regresso*

E contudo perdendo-te encontraste.
Em contraste com o supérfluo e o banal
Disseste pouco mas ganhaste.
E cá para nós isso é essencial.

Antes de ti o jogo era mistério.
Mostraste que era a hora de chegar.
Ver e vencer ao mapa do império
Cor de rosa: que linda cor para festejar

Soam tachos e panelas no pagode
Convive o Ministro com o roupeiro
No estádio não há rico nem pobre
Embora houvesse falta de timoneiro

Do Brasil até Lisboa caminhaste sobre o sal
O canto e as armas, a lusa crença
Tardiamente e aos microfones cumpriu-se Portugal
Vejam "a Bola" e a restante imprensa.


* inspirado no poema «Regresso» de Manuel Alegre.


Posted by Pequenas Histórias 18:54 ||









quinta-feira, junho 24

ZENÃO, SCOLARI E OS BÁRBAROS DAS ILHAS



Caro Scolari, treinador de Portugal

Aprender muitas coisas não dá inteligência. Reconhecer o erro é o caminho. Como Eudemo começaste por tentar provar não há unidade nas coisas existentes e que a pluralidade é uma soma de unidades (Simplício, Phys, 99,13). Foi o princípio grego, a primeira fase, a derrota. Ora com uma pluralidade de unidades não tens equipa. E agora enfrentas outro problema: o movimento. Os bárbaros das ilhas acreditam supersticiosamente que se chega à verdade final ou, simplesmente, à final, com grandes movimentos: rotações bruscas, sucessão de saltos, criação do contacto de coisas infinitas num espaço finito. Contra estes princípios deves lembrar-te do que diz o primeiro argumento: «é impossível atravessar o estádio; porque antes de se atingir a meta, deve primeiro alcançar-se o ponto intermédio da distância a percorrer; antes de atingir esse ponto, deve atingir-se o ponto que está a meio caminho desse ponto e assim ad infinitum». E tens de fazer isso aos bárbaros das ilhas: fazê-los compreender que os espaços com que lidam estão sucessivamente dividos ao meio (Aristóteles, Phys, 239b 14). Porque se qualquer distância finita contiver um número infinito de pontos é imposível alcançar o fim de uma série finita de tempo (no caso em apreço 90 minutos, mais prolongamentos). E quanto mais a equipa jogar unida e junta, menor o número de pontos da distância finita dos adversários. Tens contudo de ter cuidado com os lançamentos em profundidade devido ao segundo argumento: «numa corrida, o corredor mais rápido nunca pode alcançar o mais lento, uma vez que o perseguidor deve primeiro atingir o ponto de onde partiu o perseguido, pelo que o mais lento deve ter sempre a dianteira» (Aristóteles, Phys, 239b 14).

Que os deuses te acompanhem
do teu amigo Zenão de Eleia


ANA C.


Posted by Pequenas Histórias 11:49 ||







PRETEXTO DAS PLANTAS



O Tiago dizia: senecio jacobeaea; eu contrapunha: calluna vulgaris. Tirávamos uma ramada e fazíamos a aposta.
Tenho saudades desses momentos: o pretexto das plantas, a fatiga dos livros, arrepios mínimos.


Posted by Pequenas Histórias 00:24 ||









terça-feira, junho 22

IRMÃ LÚCIA




Relato das aparições que me apareceram

Para além das aparições que toda a gente conhece, Nossa Senhora voltou a aparecer-me noutras ocasiões. Infelizmente, não sei porquê, os senhores bispos e os senhores cardeais e mesmo o Santo Padre nunca me autorizaram a divulgá-las. Mas agora, com a internet, posso dá-las a conhecer a todos vós pois recebi autorização expressa para o fazer de um cardeal com quem falei há alguns dias. Só o vi num sonho e é verdade que tinha cabeça de bode e cheirava a enxofre mas tinha uma mitra escarlate por isso acho que conta.

13 de Maio de 1944 – Depois de uma ausência prolongada, Nossa Senhora voltou a aparecer-me. Vinha anunciar-me que a Grande Guerra estava quase a acabar e apelar à conversão dos hereges e dos ateus. Disse ainda ser da sua vontade que o Barreirense ganhasse o campeonato nacional pois desde há muito que era o clube do seu coração imaculado. Pensei para mim que converter os hereges e parte dos ateus ao bom caminho até não era muito difícil agora o Barreirense ganhar o campeonato... Tive pena e ofereci-lhe um terço feito por mim.

27 Outubro de 1967 – Alguns meses depois, voltei a vê-la flutuando sobre uma poça de água da chuva com algumas pedrinhas no fundo. Disse-me que tinha emprestado o terço ao arcanjo São Miguel e que este o tinha perdido. Queixou-se de que os anjos são sempre “a mesma porcaria”, que não têm cuidado nenhum, são arrogantes e que deixam cair penas por todo o lado. Ofereci-lhe outro.

8 de Junho de 1980 – Desta vez a Senhora não me apareceu sozinha. Trazia Santa Bernardette, a vidente de Lourdes, pela mão. Fomos as três juntas e incógnitas a uma casa nocturna com música muito alta e onde homens de corpos inchados dançavam e se iam despindo ao mesmo tempo. Vi coisas que nunca tinha visto e Bernardette também não. A Senhora, apesar de virgem, confessou que já não era novidade para ela e acrescentou que a do Espírito Santo era maior.

21 de Janeiro de 1986 – Estava a rezar um terço quando, quase sem dar por isso, Nossa Senhora me apareceu e me tocou no ombro. Trazia um catálogo de encomenda de roupa por correspondência e pediu-me ajuda para lhe escolher “uns trapinhos novos” porque já estava farta do branco e o véu começava a ficar um bocado coçado depois de mil e tantos anos. Disse-lhe que não percebia muito do assunto porque tinha andado a vida toda ou com roupas de campo, na minha infância, ou com hábitos religiosos. Lá se decidiu a mandar vir umas blusinhas sem mangas de cor salmão e verde e uma bolsa a imitar pele de crocodilo com desconto de 30% porque a crise da altura também se fazia sentir no Céu.

30 de Março de 1993 – Não a vi mas apenas lhe ouvi a voz. Perguntei-lhe porque não se mostrava e só me disse que se tinha enganado e que, desta vez, queria aparecer à Santinha de Balazar e não a mim. Deixou-me cumprimentos do Senhor nas suas três pessoas e dos santos e beatos todos e foi à sua vida.

12 de Setembro de 1999 - Foi a última aparição até agora. Passámos o serão a jogar à sueca. Descobri que Nossa Senhora tem mau perder. Não sei se foi por isso que nunca mais a vi...

in http://www.irmalucia.pt.vu/


Posted by Pequenas Histórias 08:34 ||









segunda-feira, junho 21

PIANO-BAR



Um pequeno desacato com alças e ombros italianos. Sei lidar com isto; o Carlos já me está a piscar o olho. Muito obrigado. Carlos: mais um whisky. Toco as canções do Gershwin, soam as três da manhã e aí vêm as cinderelas empoleirar-se no piano: um clássico. Até que esta é bem apresentável.
- Olá.
Nem muito simpático nem muito antipático. No meio. Manter-me no meio sem balançar. Quando são tão bonitas trazem geralmente maridos furiosos atrás delas ou, então, divórcios problemáticos. Sim Carlos, já percebi, a gaja é boa. Ocupa-te mais dos clientes e liberta a zona do piano para mim.
- "I´ve Got you under my skin"? Não, essa não sei. Só com partitura e não a tenho aqui.
Estúpido. Ainda pensa que é uma deixa para ir a minha casa. Uma private session. Minha amiga, não tenho piano em casa: mal cabe lá a cama quanto mais um Steinway de cauda. Isso era antipático de dizer. No meio. Manter-me no meio. Continuas a fuzilar-me com os olhos. Andas à procura de desacatos.
Vá. Uma variação com a mão direita para mostrar bem a aliança no dedo. É o meu desengodo. A aliança é o grande suporte de um músico: Lá Maior, Dó Maior e engata para Mi Menor: " But not for me" do Cole Porter, um sorriso simpático... agora. Concentração de novo, cadência final e ficamos por aqui. Amanhã há mais: mesmo local à mesma hora. Aproxima-se…ai... ai… um segredo: vai dizer-me um segredo ao ouvido. A tipa tem lata. O Carlos já está a fazer o código da marinha.
- (sussurro) Escusa de ficar tão aflito. Eu também sou uma profissional.

ANA C.


Posted by Pequenas Histórias 18:39 ||













Licença Creative Commons
Sob a Licença de Creative Commons.