PEQUENAS HISTORIAS





quarta-feira, junho 16

POSTURA



Perdas súbitas de memória: não. Dificuldades na gestão do dinheiro: não. Confusão de nomes: não. Desconhecimento de lugares familiares: não. Incapacidade cognitiva: não. Estas cinco respostas bastavam para o médico sossegar o paciente. Ele podia ter muitas doenças, muitas queixas mas estava livre de quaisquer sintomas de Alzheimer.
- "O senhor António tem uma boa cabeça para a sua idade. Pode agradecer a Deus."
O doente não gostava porém de diagnósticos rápidos e de escrutínios incompletos. Precisava de ter a certeza:
- "Sr. Doutor e as confusões que eu faço nas leituras? É um dos prazeres que me restam e cada vez baralho mais as coisas. Não compreendo a história, confundo personagens, perco o fio à meada. Como explica isso?"
- "Meu amigo - o médico saboreava a resposta -, se eu diagnosticasse uma enfermidade a todos os que têm dificuldades de assimilação da literatura, para aí 90% da população era internada. Com os livros que para aí se publicam…"
O velhote detectou um tom de paternalismo nas palavras do clínico e não gostou. Ele não era hipocondríaco, nem maniento de doenças.
- "Expliquei-me mal. Eu gosto de clássicos: obras antigas, de outros tempos. E releio precisamente para exercitar a memória. Só que baralho tudo. Por exemplo o Doutor conhece a "Fiesta" do Hemingway? - O médico assentiu com a cabeça- Pois agora parece-me que aquele toureiro espanhol por quem a Bret se apaixona é um maricas. A minha mulher diz que isto é um disparate e que eu estou a ficar gagá. E antigamente eu tinha de facto outra imagem do toureiro…"
O médico levantou-se para acompanhar o velhote à porta, mas este permaneceu sentado.
- "Interpretações, meu amigo… a literatura serve para isso mesmo: para dilatar os nossos horizontes, a imaginação, a diversidade de visões do mundo. Provavelmente a televisão está ligada e o senhor António divide a sua atenção a meias com as telenovelas e faz uma ou outra confusão, mas nada de grave, nada de grave" - deu-lhe umas pancadinhas amigáveis no ombro com umas batidas em código morse que diziam: "levanta-te que eu tenho mais doentes em lista de espera e quero chegar a casa a horas."
"Quanto mais me despachares mais eu aqui fico. Paguei a consulta e não vou embora sem ouvires tudo o que tenho para dizer". Este pensamento endureceu a voz:
- "O senhor doutor está a tratar-me como se eu fosse um inválido e eu sou velho mas não sou inválido. Não leio os livros com a televisão acesa: leio-os na cama para repousar o corpo. Por causa daquele problema nas vértebras que o senhor doutor sabe. De há três anos a esta parte tenho seguido as suas recomendações de postura na horizontal. Num dia inclino-me para o lado direito e leio as páginas pares; no dia seguinte deito-me virado para a esquerda e leio as páginas ímpares."


ANA C.


Posted by Pequenas Histórias 00:04 ||









terça-feira, junho 15

ABSTENÇÃO



Quando a abstenção ficou suficientemente quente esfarelou-a com os dedos. Depois, agarrou no cigarro e descascou-o como se tirasse a pele a um fruto, intercalando uniformemente o tabaco nos pedaços de abstenção. Endireitou o corpo e varreu a palma da mão esquerda com um dedo, de modo a que a mais ínfima partícula desta mistura caísse dentro de uma mortalha de papel de arroz. O último filamento depreendeu-se, mas Marcelo continuou a esfregar a mão, raspando a camada de suor seco situada à flor da pele para evitar qualquer desperdício. Pegou então num filtro, ajeitou-o na extremidade da mortalha e rolou a película de papel entre os dedos utilizando os polegares como carretos. Quando a acção de enrolamento produziu um cilindro homogéneo humedeceu a ponta do papel. Colou-o com a língua, acendeu-o, aspirou uma fumaça e disse:
- É banhada mas dá para trepar.


ANA C.


Posted by Pequenas Histórias 01:59 ||













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