PEQUENAS HISTORIAS





quinta-feira, junho 10

O TRÂNSITO DE VÉNUS



Aumento das sobras, diminuição das tiragem e contenção de custos levaram o chefe de redacção a rescindir o contrato com uma colaboradora externa e a adquirir uma licença de software do programa "Astro2002" . A incumbência de fazer o semanalmente o horóscopo foi entregue a uma estagiária. O problema é que o software nada tinha de amigável, exigia raciocínio e conhecimento prévio e o único output era uma carta astral. Ninguém pensou no pequeno pormenor de que as "oportunidades para travar novos conhecimentos", "os cuidados com as mudanças de temperatura" e a "semana favorável para os nativos primeiro decano" não apareciam por magia na carta astral, muito menos para uma leiga. O dinheiro tinha sido gasto e não se ia comprar novo programa. "Desenrasque-se!". Após dois dias de bricolage, com o manual e o computador, a estagiária decidiu enveredar por uma outra solução:
Com base nas datas de aniversário seleccionou os amigos correspondentes a cada signo. Depois, em cada entrada do horóscopo, bastava-lhe pensar na pessoa escalonada, nos seus últimos sucessos, infortúnios , doenças, radiografia amorosa, estado de espírito e vida material e escrever um texto de cinco linhas em consonância com a situação. A tal método chamava o Zodíaco pessoalizado e quem acreditasse na astrologia tinha de admitir que era tão legítimo procurar a chave das coisas no movimento dos corpos celestes, como deduzir essa chave através da maneira como os comportamentos dos indivíduos reflectiam as mudanças na órbita dos planetas. Em vez de inferir causas gerais sobre incidências particulares, Sara observava a presença das causas nos seus efeitos. O importante é que existia um método.
Tudo correu bem nos primeiros tempos.
Um dia foi chamada ao chefe que lhe mostrou várias missivas de leitores em protesto pelo facto de Escorpião só ter insinuações agourentas de há dois meses a essa parte.
Como se havia de desenvencilhar desta? Escorpião- Laurinda-13 de Novembro. A Laurinda andava na corda bamba no emprego e trazia esses problemas para casa: queixas repetidas; propensão para vítima; lamenta-se para vencer e conseguir o que quer; raio de mau feitio; signo tramado.
- É o tráfico de Vénus - desculpou-se, arrependendo-se logo de seguida. Não era tráfico, mas outra palavra. Já não podia emendar a mão. Que estupidez, dizer "tráfico de Vénus".
- Gémeos fica nos antípodas de Plutão - voltou a encalhar na palavra antípodas??? Haverá antípodas na astronomia? - e Escorpião ressente-se. Mas a partir de agora, com o afastamento de Vénus, inicia-se um novo ciclo - Uffh! Suspirou mentalmente.
- Então ainda bem, o assunto fica resolvido - o Chefe de redacção olhava-a com ironia.
Quando ia a sair do gabinete acrescentou:
- E pode passar a ter mais cuidado com o Escorpião porque um dos protestos que aqui tenho é precisamente do administrador João Pereira que decidiu cortar no investimento para este ano.

ANA C.


Posted by Pequenas Histórias 16:12 ||









quarta-feira, junho 9

INFIDELIDADE



Avanços clássicos as mãos a boca, mostramos alguma indecisão em como começar e eu reparo nos móveis pré montados com uma clara imperfeição nas junções onde faltam ângulos rectos e sobram parafusos estropiados; reparo nos naperons puídos em ponto de cruz , na coberta de especiarias artificiais "made in China", no ar contrafeito. Autêntica só a cor do cabelo pela qual aqui vim: azeviche dos baldios, solidão mestiça, carvão. Ambos sabemos como isto acaba porque entre nós não há nada: nem a especulação da mentira nem a compaixão do erro. Por isso mostramos alguma indecisão em como começar. Infidelidade sensata, turismo furtivo.


Posted by Pequenas Histórias 22:02 ||







CLASSIC e GOLD



Teresa expôs o caso:
- "Venho cancelar o cartão de crédito e a minha conta. Não estou interessada em pagar uma anuidade por serviços que não me interessam e que não pedi."
Encaminharam-na cautelosamente para o gerente, um homem de quarenta anos com fato transviado do parlamento inglês (ala conservadora, às riscas) e uma gravata fosforescente. A primeira preocupação do gerente foi determinar o ranking hierárquico da cliente: os depositantes classificavam-se em quatro categorias (foguetão, rocket, míssil e sputnik) consoante a magnitude das contas e dos investimentos. Ora a Dr.ª Teresa era um sputnik e portanto digna de cuidados especiais. Após a consulta de três páginas no terminal informou que, para anular o cartão, teria primeiro de liquidar 712 Euros em atraso. Porém ele não desejava ir por aí. Diagnóstico, negociação, entendimento eram a cartilha da casa para captação de activos:
- "A Dr.ª Teresa tem alguma queixa a apresentar? Algum problema que possamos resolver?"
Esta era a oportunidade. As comportas abriram-se e as reclamações saíram de enxurrada. Teresa explicou como não conseguira concretizar uma transacção, na véspera, por ter ultrapassado o limite previsto para as compras. O problema é que o cartão de crédito ao ser processado lançou um silvo agudo e causou um enorme embaraço tanto a ela como à menina do balcão. Tentaram de novo e a cena repetiu-se: parecia que protestava pelo facto de ser utilizado. Desistiu da aquisição e foi ao supermercado com a ideia de pagar em notas. Mas mesmo assim o cartão voltou a apitar. Guinchava durante dez segundos e depois calava-se. A partir daí, de cada vez que mexia em dinheiro para pagar um café, um jornal ou cigarros, o irritante barulho fazia-se ouvir apesar de abafado no fundo da carteira. Começou a sentir-se censurada. Ora ela não tinha casado com um bocado de plástico para receber lições em como devia aplicar as suas poupanças. E ninguém a tinha avisado que o cartão fazia estes malabarismos. Nem ela nunca tinha pedido semelhante coisa.
Estava identificado o problema. A serenidade do gerente mostrava que sabia lidar com o caso:
- "Tem toda a razão em estar preocupada e desde já queira aceitar as nossas desculpas - reconheceu recostando-se na cadeira - O que se passa é que os novos cartões têm um chip incorporado e o chip que lhe foi atribuído, por engano, é um FRIEDMAN CLASSIC. Na gíria chamamos-lhe CLASSIC porque assim que ele detecta possíveis dificuldades no orçamento das famílias assume a iniciativa de cortar nas despesas, enviando um script para a memória residente que solta uma espécie de uivo de alerta perante quaisquer sinais de consumo. Pelos vistos este chip exorbitou as suas competências. Pelo facto, as minhas desculpas. Sem qualquer despesa para si, vou imediatamente substituí-lo por um cartão de crédito GOLD. Aqui há uma função na memória que quando detecta uma ameaça de défice no orçamento familiar automaticamente expande o plafond concedido para o dobro com possibilidade de mais três renovações automáticas do limite de crédito."
Teresa parecia reparada na indignação embora indecisa. Perguntou:
- "E esse cartão não apita , pois não?"
O gerente mostrou a prateleira de dentes chumbados:
- "Dr.ª Teresa, por amor de Deus, estou a oferecer-lhe o topo da gama: o KEYNES GOLD STANDART."


Posted by Pequenas Histórias 00:04 ||













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