PEQUENAS HISTORIAS





domingo, junho 6

A MIBEL SÓ EXISTE NO PAPEL



Chateei-me a sério com a MIBEL. Se há coisa que não suporto são pessoas que prometem mundos e fundos e depois nunca cumprem compromissos. Ao princípio é só sorrisos, só simpatia e glamour mas quando chega a altura de assumir uma relação mais séria, dão à sola num instante. Ainda por cima a Mibel tem um defeito detestável: chega sempre atrasada a todo o lado e ainda tem a lata de inventar desculpas esfarrapadas: "que foi um arranque provisório" que "tem problemas com as interconexões" mas "que vai vai fazer bem a toda a gente". O tanas é que vai: deixa um gajo pendurado a olhar para as horas, a desbaratar energia nas esquinas e a ver a vida a andar para trás. Comigo poupa-se ao risco de uma verdadeira estreia: leva com os pés e pronto. Omip. Só lhe peço que me devolva as cartas para evitar embaraços. Isto já é coisa do passado:
a MIBEL só existe no papel


Posted by Pequenas Histórias 14:27 ||









sábado, junho 5

O MANUAL



O "Manual do guerrilheiro urbano" de Carlos Marighuella hibernou durante décadas para ressuscitar durante uma limpeza à arrecadação. Estava numa pilha com vários livros de psicologia de Piaget e de Wallon, um Dostoievsky de bolso e dois volumes da "Ideologia Alemã" de Marx - tudo com capas desbotadas e pontas retorcidas. Um tirocínio rápido ao estado de conservação revelou uma passagem:
"As qualidades importantes no guerrilheiro urbano são as seguintes: que possa caminhar bastante; que seja resistente à fadiga, fome, chuva e calor; conhecer como se esconder e vigiar, conquistar a arte de ter paciência ilimitada; manter-se calmo e tranquilo nas piores condições e circunstâncias; nunca deixar pistas ou traços".
"Conquistar a arte da paciência ilimitada" era um bela frase que se adequava ao processo litigioso de divórcio e aos 1200 Euros que o advogado se apressara a cobrar a título de avanços sobre despesas futuras. "Manter-se calmo e tranquilo nas piores condições e circunstâncias". Porque será que quando a ideologia toma conta da linguagem sentimos algum conforto? - pensou ela. Mariguella escrevera sob a pressão da ditadura militar brasileira e o pequeno manual era um receituário de preocupações políticas. Mas o que em tempos tinha como destinatário a sociedade podia também ser útil do ponto de vista pessoal. Afinal um processo de divórcio é uma guerrilha urbana. Página dezasseis:
" No entanto, com respeito à informação, não pode ser reduzida a somente saber os movimentos do inimigo e evitar a infiltração de seus espiões. A informação tem que ser ampla, tem que incluir tudo, incluindo os dados mais significativos. Há uma técnica de obter informação e o guerrilheiro urbano a tem que dominar. Seguindo esta técnica, a informação é obtida naturalmente, como uma parte da vida das pessoas."
Estava sob ataque e sempre restringira o seu ponto de vista à defesa e à sobrevivência. Ali falava-se de tácitas de antecipação e de contra-resposta.
Passou o pano para tirar o pó e separou o "Manual do Guerrilheiro" dos restantes livros. A obra tinha voltado a ter actualidade.


Posted by Pequenas Histórias 16:36 ||









sexta-feira, junho 4

MEIA DIREITA



- Que nome dás a um indivíduo destes? Aãannn.. Se não é "hipócrita" que nome lhe dás? Um político que proclama valores católicos e de defesa da família mas que depois leva uma vida absolutamente dissoluta e esquisita? Debita uns princípios morais, mas esses princípios são para aplicar aos outros e não a ele próprio. Como é que chamas a isso?
Há conversas que não levam a lado nenhum. Estava cansado:
- A isso chamo um político de direita. Mas apenas da cintura para cima.


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segunda-feira, maio 31

EM PRIMEIRA MÃO




Patrícia comprou a primeira casa em primeira mão no dia 24 de Outubro de 2003. Levou quatro meses a mobilar duas assoalhadas aproveitando o facto de continuar domiciliada junto dos pais para escolher criteriosamente um aparador, uma cama, um sofá, uma mesa e oito cadeiras e uma estante de faia maciça. Depois foram os tapetes e as cortinas: outro mês. O trem de cozinha e a roupa em falta no toalheiro, mais os apetrechos da casa de banho: cinquenta dias. A mãe dizia que ela ainda havia de sentir saudades do seu quartinho. Como estava em altura de corrigir testes no liceu foi difícil conseguir completar a lista de produtos de higiene pessoal: sabonetes, creme de limpeza da pele, óleo de amêndoas doces, escova de dentes, pasta, champô, tesoura das unhas, álcool, água oxigenada, algodão e pensos. Tinha perdido vinte dias mas valia a pena porque a casa estava finalmente habitável. Últimos retoques: uma caixa de Aspergic, outra de Ben-huron e um termómetro. Só faltava mesmo ela. -"É uma boa habitação, pena ser tão pequenina" - comentário do pai. Reparou então que a lâmpada de 75 watts não iluminava decentemente a sala. Convinha esperar por uma oportunidade dos saldos e adquirir um candeeiro de mesa e outro de pé alto. O Verão inclinava-se e conheceu um homem divorciado de quem se enamorou. A mudança ocorreu no dia 1 de Julho. Era o vizinho do terceiro esquerdo.


Posted by Pequenas Histórias 19:08 ||













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