PEQUENAS HISTORIAS





sábado, maio 29

SURABAYA, 1933



- "É fazer uma trouxa e abalar - se passares a pé levantas menos suspeitas na fronteira. Abandonas o carro que eu mando lá alguém. Segundo os meus contactos só amanhã é que o mandato de captura sai do Ministério do Interior para as Polícias. Por isso deves ter pelo menos umas quinze horas de avanço. Levas uma mala pequena e vais ver que tudo corre bem nos postos de controle. Lá para o Verão estás de volta: isto é um fogacho temporário. Tão depressa como chegaram hão-de partir; o governo aguenta-se para aí, no máximo, dois meses e daqui a um tempo já ninguém se lembra deles: mais um golpe, mais prisões, mais discursos - tudo para a sarjeta. Vai por mim, esta cambada de imberbes e de burros excitados não tem a mínima hipótese. Pensa nisto como umas férias antecipadas ; olha que estás a precisar. Como vão os outros assuntos?".
Corria o último dia do Mês de Março e Kurt sabia que o amigo não dizia aquilo só para animar. Estava verdadeiramente convicto que o estado de emergência era temporário. Mas ele não partilhava essa sensação: algo lhe dizia que o governo saído do golpe tinha pegado de estaca. Olhou para a praça e viu a silhueta embaciada dos prédios, os toldos recolhidos, as fraldas de água encostadas aos passeios e uma grande tira de pano presa no algeroz do edifício da municipalidade com a marca infame da suástica. Uma desgraça nunca vem só. Nesse momento teve a certeza de que estava a observar a cidade amada, Berlim, pela última vez.
"Surabaya" - Adeus.


Posted by Pequenas Histórias 15:50 ||









quinta-feira, maio 27

SOLUÇÃO LÓGICA



O jantar consistia muitas vezes numa sopa e em meia sardinha sobre uma fatia de pão de trigo porque éramos muitos lá em casa. A minha mãe tentava conciliar a repartição mas havia sempre protestos porque os que ficavam com a metade do rabo se achavam prejudicados e alegavam que a parte da cabeça tinha mais para comer. O hábito da fome tinha transformado as espinhas quebradiças das guelras e a gelatina dos olhos em petiscos dignos de revindicação. Resultado: as disputas eram renhidas, nunca ninguém ficava contente e a minha mãe acabava invariavelmente a noite a recriminar o meu pai com o ditado: "casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão".
Um dia sugeri o que me parecia evidente: em vez de se cortar a sardinha ao meio devia antes fazer-se a divisão na horizontal, extraindo duas metades ao longo da espinha de modo a acabar com as brigas. Ninguém deu ouvidos a esta ideia e liquidaram o assunto dizendo que não era prático. Uma tal recusa pareceu-me uma teimosia e uma estupidez: a minha solução baseava-se na simetria e, portanto, na lógica. Hoje percebo que os incidentes não tinham nada a ver com a lógica nem sequer com a procura de uma solução.


Posted by Pequenas Histórias 21:44 ||









segunda-feira, maio 24

BOAS NOTÍCAS PARA AS PESSOAS QUE GOSTAM DE MÁS NOTÍCIAS



Good News For People Who Love Bad News , dos MODEST MOUSE, Já saiu e está à venda em Portugal.
Para ouvir aqui .


Posted by Pequenas Histórias 11:47 ||













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