PEQUENAS HISTORIAS





domingo, maio 23

LUA DE MEL



-A gravata dá-lhes segurança. Já viste que trouxeram todos gravata para a festa?
- Todos menos o Pedro - observou Cláudia - o Pedro é amoroso.
A amiga chegou-se à frente da mesa e aproximou-se para não ser audível por terceiros:
- O Pedro é mas é um imaturo: Sabes o que ele andou a fazer durante a lua de mel?
Ao pressentimento de revelações Cláudia inclinou o tronco. A outra continuou em voz baixa:
- Levou a mulher para uma semana de provas automobilísticas em pleno noivado. Foram para as Astúrias, mas sempre por itinerários secundários de estradas florestais. Imagina: com o vestido de noiva por terra batida, levantando nuvens de poeira, a 100 à hora, perdidos entre serras, sempre à espera de ver o carro despistar-se numa curva, com stress de contra-relógio. E quando chegavam a um canto da civilização o Pedro corria aos stands de automóveis para comparar preços e ofertas especiais com os preços dos carros em Lisboa. Muito romântico sem dúvida: uma lua de mel de jantes de liga leve, tracção às quatro rodas, cromados na parte da frente, não sei quantos centímetros cúbicos de cilindrada, enfim, tudo aquilo que uma mulher sempre sonhou.
As gargalhadas cortaram o tom sibilino da conversa e houve alguns rostos que se voltaram para elas. Também já se notavam efeitos da bebida. Cláudia retomou a compostura. Queria dizer alguma coisa mas parecia indecisa:
- Nunca contei isto a ninguém, mas sabes o que sucedeu na minha lua de mel? - Algo pior que o rally paper pairou no ar. Cláudia tinha aberto a caixa dos segredos e não podia voltar atrás - Fomos para norte, com a intenção de ver a casa dos avós do Nuno. Na viagem, sempre que nos cruzávamos com um carro do lixo, daqueles que têm sistema de elevação mecânica de caixotes, o Nuno colava-se atrás e fazia a ronda das ruas a acompanhar a recolha. Na altura estava tão apaixonada que achava graça. Era tão extravagante … tão extravagante que me parecia mais uma loucura; tudo era possível. Agora, quando olho para esses tempos, com uns anos de distância, não posso deixar de ver as coisas como elas eram: passei uma boa parte da lua de mel a perseguir carros do lixo.


Posted by Pequenas Histórias 15:10 ||









quinta-feira, maio 20

PONTO DE VISTA DO UTILIZADOR


Pedro Prista lamentava-se: ao fim de três meses de actividade, o seu Blogue, "O Absolutista", dedicado à história de Portugal, no século XVIII, continuava com fracas audiências. Em certos dias, o único visitante era mesmo o próprio Pedro Prista:
" Desinteresse pela cultura, desprezo da história" - lamentava-se.
Outra opinião tinha o colega Ricardo:
" O problema não é desinteresse pela história ou pela cultura; a questão não é essa. Se tiveres cuidado em inserir conteúdos de forma apelativa, situando-te do ponto de vista do utilizador, tens audiências. Agora não é pela elevação dos temas e pelo interesse académico que vais ser lido."
O outro sentiu uma farpa no orgulho. Ainda por cima, a palavra "conteúdos" provocava-lhe irritação: era a palavra do rebanho, dos que pensam que não há bom conhecimento sem bom design. Espicaçado, lançou um repto:
- Aposto um jantar num restaurante à tua escolha em como não és capaz de fazer um site na Internet, com temas de cultura, com uma audiência superior à minha.
O desafio foi aceite e Ricardo colocou uma cereja no topo ao afirmar que, para a comparação ser fidedigna, ia também escrever sobre História de Portugal.
Não perdeu tempo com investigações temáticas e folheou apenas a bibliografia desactualizada do avô: o quarto volume da História de Portugal de Fortunato de Almeida, um livro de síntese de Oliveira Martins e outro de Lúcio de Azevedo sobre o império do Brasil. Casualmente descobriu uma narrativa de Agustina Bessa Luís sobre o período setecentista. O maior investimento concentrou-se na pesquisa de palavras chaves usadas com mais frequência nos motores de busca da INTERNET. Google, Yahoo, IOL constituíram as fontes documentais.
Ao fim de uma semana Ricardo criava a sua página. Ao fim de duas arrasava por completo as audiências e vencia a aposta. Os seus textos sugavam leitores aos motores de pesquisa. Aqui segue uma transcrição:

" MONARCAS DO SÉCULO XVIII
D. João V (biografia, arte em Portugal, música barroca) foi um rei à frente do seu tempo. Ia ao convento de Odivelas e impunha-se de modo absolutista servindo-se de umas noviças ali mesmo à mão: jovens famosas, jovencitas, zorras, chicas desnudas, teen, teens, fotos, pornoamateurs, sexo, grátis porque, enfim, ele sempre era rei, domesticara a nobreza e as suas filhas e tinha o império em pleno ciclo do ouro e dos diamantes segundo o conceito clássico da obra de Lúcio de Azevedo (historiografia, teoria da história, desenvolvimento atlântico, escravatura), podendo sempre levar um colar, um pingente ou uma pulseira a título de presente. Seguiu-se D. José I, homem temerato e temperado cuja autoridade era feita por um secretário de Estado que fez furor por ele, começando logo muito jovem quando fugiu com uma mulher para o estrangeiro. Entusiasmada com estes calores da juventude Agustina Bessa Luís (literatura, prémios, entrevistas, teatro D. Maria I) leu-lhe a alma e escreveu uma Biografia Autorizada (livros em segunda mão bons preços). Adquiriu o título de Marquês de Pombal (Pombalismo, Centralização do Estado, burguesia pombalina, Companhia de Pernambuco), provocando um autêntico terramoto na corte e chocando a nobreza. Era uma política mercantilista de reforço do Estado só para adultos, política XXX, entre agora: las mujeres mas viciosas y excitantes, sexo caliente, sexo porno fotos manga, asiáticas, negras, orientais, vídeos grátis. D. Maria (sensibilidade religiosa, psiquiatria, estilo Império, mobiliário neo-clássico) governou depois com os seus achaques, temerosa do despudor da revolução francesa (Rousseau, Danton, Robespierre), pela qual não perdia decididamente a cabeça. Rodeou-se de padres, reabilitou os jesuítas e engordou em Queluz pois com o fim do ciclo ouro e dos diamantes abriu-se o ciclo do açúcar, do cacau e do chocolate: Gordas, gorditas follando, maduras, rubitas, entre ahora! grátis, Sin tarjeta de crédito! Galerias de fotos! "

O ponto de vista do utilizador.


Posted by Pequenas Histórias 21:05 ||









terça-feira, maio 18

CENÁRIOS



Ex.mo Senhor Ministro
Junto remeto o meu relatório semanal. Face às projecções para os próximos anos aconselho-o a ponderar a hipótese de sair do governo pois adivinha-se o início de um ciclo problemático e com pouca margem de manobra cujas consequências serão dramáticas para os detentores de cargos públicos. A decisão compete claro está a Vossa Exc.cia, mas não ficaria de bem com a minha consciência se o não alertasse para os cenários que se adivinham.

RELATÓRIO
A OPEP está novamente a usar o crude como arma política e o preço do petróleo vai continuar a subir agravando os custos das empresas que vão repercutir este aumento nos produtos pagos pelos consumidores. A inflação vai disparar e a taxa de juro acompanhá-la-á. Com o preço do dinheiro mais caro diminui a propensão marginal para o investimento e a procura de mão de obra, piorando a situação do emprego. Por outro lado, com a subida dos preços agravam-se também as condições de vida dos trabalhadores que vêem os salários nominais serem desvalorizados pela inflação enquanto a factura com os juros de empréstimos contraídos tem tendência para aumentar. A erosão constante do nível de vida só pode ser evitada mediante um movimento generalizado de greves e reivindicações. No entanto, a situação difícil das empresas e do Estado retira capacidade negocial para satisfazer estas reivindicações e os conflitos agravam-se. O governo é chamado a intervir com mais frequência e a imagem dos políticos deteriora-se. Além disso, a manutenção da ordem torna-se também complicada pois às lutas sociais acrescenta-se um novo ciclo de criminalidade. Todos estes factores são ampliados por um ambiente de insegurança internacional que faz retroceder a intensidade da circulação de pessoas e de mercadorias perturbando as economias de escala conseguidas com a globalização e prejudicando os países orientados para “export led growth”. Finalmente, a queda de um meteorito com 1.726 km de largura, na região do Alasca, no ano de 2006, compromete definitivamente as expectativas de recuperação económica, de recuperação do governo e de recuperação da própria humanidade.
Perante este cenário recomendo vivamente o seu afastamento voluntário, invocando assuntos familiares urgentes.
Respeitosamente,
A. Cordeiro


Posted by Pequenas Histórias 14:50 ||













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