PEQUENAS HISTORIAS





domingo, maio 16

ENTREVISTA



Eu explico como é que isto funciona: o Ministro dá luz verde à marcação de uma entrevista. De seguida, o chefe de gabinete acerta os pormenores da data consoante a agenda. A partir daí é comigo.
Disponho geralmente de uma semana para fazer o trabalho de casa. O fruto do meu esforço materializa-se num relatório onde procuro antecipar as perguntas mais prováveis, delinear um plano de resposta e elaborar o "draft" de estratégia comunicacional (perdoem-me o anglicanismo, mas é mesmo assim). Este relatório é posteriormente entregue ao Ministro que analisa e discute comigo e com os assessores especializados o "menu" da entrevista. No mundo perfeito dos procedimentos formais as coisas passam-se assim, embora na prática seja mais frequente sermos atropelados por outras prioridades que alteram todo o esquema.
A minha primeira tarefa consiste portanto em sintonizar o pensamento do jornalista responsável pela condução do diálogo e enquadrar o seu perfil. Somos tigres simétricos nesta missão, cada qual procurando ser mais ágil que o outro. Simplesmente disponho de uma vantagem pelo facto de me situar no plano da meta-entrevista, isto é, enquanto o jornalista estuda a melhor abordagem para o guião das perguntas, eu antecipo as respostas a essas perguntas. Se tudo correr bem fico um passo à frente dos acontecimentos.
Não me aborrece o facto de estar sempre nos bastidores porque aprecio o mérito silencioso e sem alarido. No fundo, o que conta são resultados. Deixo contudo um sinal. A três quartos do tempo útil, quando os motores já aqueceram, surgem as questões mais difíceis, aquelas que trazem água no bico. Trata-se geralmente de explorar uma contradição ou uma divergência surgida no interior do campo político do Ministro, ou de dar eco a críticas da opinião pública, de organismos internacionais ou de comentadores da imprensa. Ouve-se então o Ministro começar a argumentação com um agradecimento ao entrevistador:
- Ainda bem que me faz essa pergunta.
É a minha assinatura.


Posted by Pequenas Histórias 15:39 ||









quarta-feira, maio 12

À TABELA



- O importante é pensar em termos absolutos e não em termos relativos. A paixão não está na casa das frequências nem das percentagens; a paixão é o quadro completo, a soma das colunas e das linhas , o valor total, indivisível.
No sétimo céu, Marta exaltava o Mundo sob a influência de Sagitário. Outros rios passavam entretanto por Isabel. Encolheu os ombros e disse para a amiga:
- Esse teu optimismo com as tabelas não conforta o pessimismo dos meus resultados.


Posted by Pequenas Histórias 09:25 ||









terça-feira, maio 11

OCUPAS



As opções são colectivas à queima das fitas: sexo, sexo, sexo. Ocupamos os coretos, as esquinas e os estabelecimentos com quinze lugares sentados. Conquistamos ruas à força remamos no esplendor do álcool. As nossas pestanas e o cabelo curto e os fatos negros e as camisas brancas debaixo de candeeiros, arrastados pelo charivaris. Vale tudo, vale nada. Tudo!


Posted by Pequenas Histórias 09:30 ||













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