PEQUENAS HISTORIAS





domingo, maio 9

O MAL É MAIS INTERESSANTE QUE O BEM



À pergunta sobre o tipo de personagens que preferia interpretar o actor respondeu que gostava dos papéis de mau. Acrescentou que o Mal é geralmente mais interessante, mais complexo e mais desafiador que o Bem. A frase ressoou pelas ondas de rádio até embater nas filas de trânsito. Nesse momento, o locutor passou a chamada ao ouvinte seguinte - "vamos ouvir mais um comentário". Uma voz entrecortada de besouros exprimiu então a sua indignação: queria perguntar se o actor era capaz de continuar a louvar as qualidades do Mal caso um louco lhe raptasse a filha?
O homem de teatro engasgou-se: percebeu como uma declaração descontraída podia de repente comprometer a vida privada. Um ponto sensível. Ele não desejava o sofrimento de ninguém e referia-se apenas a papéis, a personagens, a desempenhos teatrais. Condenou o crime e a violência; justificou o bem e a felicidade alheia.
A crueldade épica servira de pretexto para o homem largar uma tirada e acrescentar um aroma de escritores malditos e de boémia artística à entrevista. Porque o elogio da tragédia era, no fundo, o elogio da cultura: das figuras de poder de Shakespeare, dos burlões de Goldoni, dos desesperados de Ibsen. Mas estava a falar para várias audiências e bastou alguém lembrar o horror do concreto para desaparecer instantaneamente a poesia do simbólico. Talvez seja por essa razão que o mal é interessante: o espectáculo do Mal vai deslocando as fronteiras do Bem.


Posted by Pequenas Histórias 13:06 ||









quarta-feira, maio 5

OS FUNKZABÓDIES



Qualquer indivíduo medianamente informado não tem hoje dúvidas quanto ao facto de os funkzabódies serem a principal causa de abandono escolar em Portugal. Estes microorganismos, que podem chegar aos 0,08 mícrones de altura, pairam em suspensão com eléctrodos negativos e entram no corpo dos alunos geralmente por aspiração bucal. Daí que os rapazes e raparigas do secundário sejam os mais atreitos a apanhar o vírus pois passam grande parte do tempo escolar com o sistema imunitário desprotegido pelo hábito de falar, gritar, bocejar, suspirar ou adormecer durante as aulas. Clinicamente distinguem-se as colónias de funkzabódies de português e as colónias de matemática designadas, as primeiras, por buga-sintéticas e as segundas por lógico-assolapadas.
Uma vez no organismo, os funkzabódies hospedam-se no interior do cérebro e começam a fazer zapping ao hemisfério esquerdo. Há três tipos de investidas: colocar uma ficha tripla nas funções de linguagem para as ligações dos centros motores; fazer um copy das funções morais, transportando depois essa informação para as funções de imaginação onde é executada a operação de paste; enviar vales de desconto com emoções para as torres da memória.
Como bem chamou a atenção o Presidente da República, cerca de 45% dos jovens entre os 14 e os 25 anos são atacados por funkzabódies, o que nos coloca na cauda da Europa.


Posted by Pequenas Histórias 22:55 ||









segunda-feira, maio 3

GUELAS



- "Não vale fazer ganso"- repetiu pela terceira vez o líder da oposição.
- " Não há ditos!" - respondeu o Primeiro Ministro com a sensação de estar atrasado.
- "Abafanços só com três toques" - disse o Ministro da Defesa, seguro da pasta.
- " Papa não come olho de boi" - o representante das esquerdas minoritárias conseguia deste modo reposicionar a questão.
No dia seguinte, o Jornal Público, a RTP2 e a TSF abriram o noticiário com a mesma singular manchete:
" Questões procedimentais dominam debate".


Posted by Pequenas Histórias 23:02 ||













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