PEQUENAS HISTORIAS





domingo, maio 2

CONTRA OS POETAS



"A barca do amor quebrou-se de encontro à vida quotidiana" - que imagem tão disparatada e tão típica da idolatria dos poetas. Querem ver o amor numa corrente de vagas e marés, embuti-lo no destino vomitando a alma. O melhor é mesmo descartar responsabilidades para rochedos e para anjos sapadores: a ideologia da felicidade frágil que sucumbe ao cimento social. Nada disso é autêntico nem forte. A verdade é bem mais crua pois o amor quebra-se voluntariamente pela traição e pela desistência. Teresa amou durante sete anos o marido e o filho e um dia, um dia como outro qualquer, ele disse-lhe que ia sair de casa porque se tinha entretanto apaixonado. Nessa noite dormiu no sofá; no dia seguinte fez as malas.
O almofariz das cinzas é agora fustigado pelo vento.


Posted by Pequenas Histórias 23:27 ||









quinta-feira, abril 29

SEGURANÇA RODOVIÁRIA



A minha sogra é um Toyota Coupé que se cruza quatro vezes por ano com o meu cunhado bulldozer nos jantares de família. A sinistralidade começa logo nas entradas: tostas deficientes e queijos sinuosos deixam antever problemas quanto à sinalização e aos traçados. Chegamos ao prato de carne ou de peixe com atropelamentos e excessos e condutores embebidos. Desligo o comutador e auto mobilizo-me para a segunda-feira mental: quem diz que regressar ao trabalho é assim tão mau? Felizmente que a sobremesa repõe alguma acalmia e ouvem-se então os primeiros balanços das operações com o número de acidentes. Os anos são francamente transactos por comparação a igual período. A quadra termina frente à televisão com um Ministro impoluto a condenar a falta de civismo . Lembro-me que também ele é humano e um condutor. Apesar de andar com as válvulas apertadas também deve ter um cunhado e, quem sabe, até mesmo uma sogra. Há que apostar definitivamente numa política de prevenção.


Posted by Pequenas Histórias 19:49 ||









terça-feira, abril 27

MAIS VALE



Tenho dois grupos de clientes e observo-os com igual desvelo. Estudo os que vão para baixo e estudo os que vêm para cima. As velhotas são o naipe de maior categoria e quando uma velhota vem para cima é infalível. Artrose, articulações, espandilose - o raio a sete - o que importa é prolongar a subida das escadas. Um lanço uma perna, outro lanço outra perna e eu lá vou ganhando tempo. Isso é fundamental no meu ofício: o cliente tem de me ver, tem de me examinar como eu o examino a ele, ter tempo para pensar e para tomar uma decisão. Não há cá repentes nem afogadilhos. Por isso digo, prova provada, os que vêm a subir são os melhores. Mas nada resulta sem um golpe de sorte, a estocada quando o cliente se aproxima, saído do metropolitano até ficar à distância de dois lanços de degraus e uma deixa inesperada o faz sentir necessário e útil.
Estendo-lhe a palma da mão e digo: - "Mais vale pedir que roubar!" .
Ricos, remediados e humildes - a sua satisfação é a minha esmola.


Posted by Pequenas Histórias 18:46 ||









segunda-feira, abril 26

CABEÇAS DE RÁDIO



Com muito gosto colaborámos com um post nos Cabeças de Rádio sobre os Kiss My JAZZ, uma banda de culto. POlietileno é uma das almas deste Blogue dos «maluquinhos por Radiohead, Bjork, Lamb e outras melancolias melodiosas que andam por ai!» Para acrescentar aos links.


Posted by Pequenas Histórias 23:41 ||













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