PEQUENAS HISTORIAS





sexta-feira, abril 23

BLUES



O conforto da tarde estava entalado no parapeito. Um submarino pousava com camisa de manga curta para uma fotografia americana. Mais à frente, um gafanhoto gorgulhava ao sol. Ambos foram interrompidos pelo ruído de uma declaração. Um sound byte de cravos que a época é propícia a arranjos florais - pensou o submarino. O mistério dourado do apito ou o caso da Pia - pensou o gafanhoto, mais dado a grandes saltos em comprimento na comunicação social. Foram ver, locomovendo-se cada qual com as cautelas do Rossio. Chegaram à porta do vislumbre e abespinharam-se: afinal era só uma comichão no petróleo que estava a abrandar o interno bruto no intestino do déficite delgado segundo a mais recente previsão neoclássica do FMI.


Posted by Pequenas Histórias 00:37 ||









terça-feira, abril 20

GUARDA-FIOS



"Então novamente aos pardais?" Todo o santo dia a cismar com os martelos desta frase na cabeça. Desprezam e têm a paga do desprezo. Acham que ando aos pardais como um vadio só porque sou o único guarda-fios do Concelho. No entanto, gostam de ter luz em casa. E quem é que vigia os postes de alta tensão? Quem é que descobre as avarias? Quem previne os acidentes e vai ao posto de transformação? Quem chama o piquete quando há problemas com a electricidade? Gostam de ter luz embora digam que isto não é trabalho só para implicar. Calcorrear as serras , verificar tudo, quilómetros todos os dias é andar aos pardais. Mas se levo a caçadeira perdem a vontade de falar. Fecham logo as bocas de estrume e desaparecem calados e sem comentários. Sigo-os com a mira e ficam tão pequeninos dentro daquele círculo, tão pequeninos como ratos. Passei a praticar tiro ao alvo apesar de nunca disparar. Por enquanto limito-me a apontar-lhes a arma: o importante é perceberem que os posso intimidar.


Posted by Pequenas Histórias 23:00 ||













Licença Creative Commons
Sob a Licença de Creative Commons.