PEQUENAS HISTORIAS





sexta-feira, abril 16

GORGIAS, 25:4



Crátilo surpreende Sócrates a passear na Avenida da Liberdade e convida-o para se juntar à mesa do "Esplanada da Avenida" onde estão também Lísis e Gorgias. Sócrates vendo Lísis em t-shirt acede de bom grado. Senta-se e pede um Compal de manga-laranja.
CRÁTILO
-Sócrates são os deuses que te trazem à Avenida. Estávamos mesmo agora a pensar procurar-te para saber a tua opinião.
SÓCRATES
- Muito me honram com essa distinção, embora não saiba se os poderei ajudar.
CRÁTILO
Górgias diz que está muito satisfeito por causa de os anúncios da televisão falarem nestas comemorações da evolução do 25 de Abril, em vez de repetirem sempre a mesma ideia de revolução. Segundo Górgias, "evolução" aponta para o futuro e "revolução" para o passado e o futuro é um ideal melhor que o passado. O que achas Sócrates?
SÓCRATES
- Eu não tenho televisão. Por isso tens de me esclarecer primeiro Górgias. Diz-me: qual é para ti a grande diferença entre dizer que o 25 de Abril é evolução e dizer que é revolução?
GÓRGIAS
- Se me perguntas a diferença das palavras dir-te-ei que ela é clara: ambas significam mudança, no entanto enquanto a revolução é uma mudança brusca , a evolução é uma mudança gradual.
SÓCRATES
- E achas melhor dizer que o 25 de Abril é uma mudança gradual?
GÓRGIAS
- Essa é uma das razões, Sócrates. Não é a única, mas sem dúvida que é uma das razões.
SÓCRATES
- Segundo a tua ideia aquilo que é gradual é o mesmo para todos ou depende do que parece a cada um?
GÓRGIAS
- Depende do que parece a cada um , Sócrates.
SÓCRATES
- E achas que o que é gradual para um pode não o ser para outro?
GÓRGIAS
- Certamente. Pois se há gente muito impaciente e gente de quem se diz ter uma paciência de chinês, não podem ambos chamar gradual à mesma coisa.
SÓCRATES
Então estamos de acordo que aquilo a que chamamos gradual muda conforme o parecer de cada indivíduo, ao ponto de um chamar gradual o que para outro o não é.
GÓRGIAS
- Acabámos de o concluir, sem dúvida.
SÓCRATES
- Então a principal diferença entre revolução e evolução, o facto de esta última ser gradual, varia segundo o parecer de cada um.
GÓRGIAS
- Sim.
SÓCRATES
- Mas como poderemos então afirmar que algo que não é o mesmo para todos e que nem todos reconhecem por igual, é melhor que outra coisa?


Posted by Pequenas Histórias 22:48 ||









quarta-feira, abril 14

CERVEJA PRETA


Homens à noite, ocupando sozinhos uma mesa de cervejaria, a beber, alheios ao teatro dos acontecimentos, só ali com a bebida e um ou dois pensamentos, certamente não mais que um ou dois pensamentos, turvos na formação, difíceis de articular e contudo veementes, um ou dois pensamentos a que álcool dá um efeito tão repetitivo que acabam por se diluir na insistência tornando-se apenas uma coisa vaga, distante, como um nome que falha na memória e fica debaixo da língua.
Barbas tinha lugar cativo na plateia de mesas com toalhas brancas da cervejaria Açores. Todos as noites lá estava acumulando "girafas" de cerveja preta , uma após outra, até esvaziar cinco ou seis canecas e atestar pela bitola de 6 litros. Nunca ninguém o viu tocado ou a fazer cenas. Era sempre silencioso, sempre delicado e observador como se tivesse abreviado o espectáculo do mundo à perspectiva de uma mesa de cervejaria. O manto da bebida elegia as suas criaturas e juntava a irmandade dos afins, uma família rotativa onde todos eram cúmplices. Olhos encadernados numa barba longa e grisalha, negros. Comunicava com os empregados sem dizer uma palavra e saía pontualmente pelas duas da manhã. Era um Deus da cerveja. Corriam muitos boatos acerca daquela figura: uns diziam que tinha perdido a família num acidente de automóvel; outros que era um militante anti-fascista que abandonou o Partido Comunista por alturas da invasão da Hungria; outros, ainda, que na juventude tinha publicado poesia e fazia parte dos primeiros surrealistas do grupo do Café do Gelo. Um lobo de cerveja preta precisa de ter uma história por trás, algo que dê sentido aos factos, que estabeleça uma origem para um modo de vida.
Os mitos não nascem da repetição. Nascem de diferenças que são repetidas.


Posted by Pequenas Histórias 13:21 ||













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