PEQUENAS HISTORIAS





domingo, abril 11

GASPAR



"Pavão" gostava de se sentir superior. Como era completamente desprovido de carisma, autoridade e charme, cada pose transformava-se numa manifestação de antipatia e hostilidade pessoal. Adquiriu várias alcunhas no bairro, todas inventadas por mim: "Pavão", "caga-lume", "no-trespassing" e acho que o homem adivinhava o que pensavam dele.
Adiei para o dia seguinte, para a semana seguinte e para o mês seguinte a obrigação semi-profissional de o abordar na qualidade de administradora do prédio, mas aproximava-se a reunião de condomínio e tinha de ser. Devido à popularidade das alcunhas, nem sequer sabia o nome verdadeiro pelo qual o devia tratar. Interroguei a este respeito o velhote da papelaria, pessoa informada e que não se metia na vida dos outros.
- "Sabe quem é o senhor do sexto direito? O que costuma passear um cão grande, lobo-de-alsácia salvo erro, de pelo grisalho?"
- Ah o Gaspar! - reconheceu de imediato o velhote - Olhe passou agora mesmo para baixo. Deve estar no parque.
Dito e feito,a oportunidade era agora ou nunca: acostava ao parque e evitava ter de lhe bater à porta. A informação revelou-se certeira. Respirei fundo e recapitulei: conversa profissional, posição de administradora, não mostrar antipatia, tom civilizado. Acho que a minha entrada cumpriu estes requisitos:
- "Senhor Gaspar, muito boa tarde, sou actualmente administradora do condomínio e preciso de falar consigo para ver se resolvemos a questão das quotas em atraso antes da reunião do prédio cuja convocatória certamente já recebeu."
O homem cerrou a face. Senti a superioridade a trepar-lhe pela espinha, estudando-me de cima a baixo, fechado em copas. Detectei também uma sombra de indignação e de estranheza no olhar.
Mau, mau. Manter a compostura: " Senhor Gaspar, mandei já fazer o orçamento para as obras na cobertura do seu lado do prédio que lhe têm causado as infiltrações e será dado andamento ao processo na próxima administração. Mas o senhor tem de regularizar a situação financeira das quotas em atraso que somam…"
Neste preciso momento, o Pavão voltou-me as costas e deixou-me a falar para os cardumes do Padre António Vieira. Vejo-o dar uns passos e a gritar para o cão:
- Gaspar! Já aqui!









Posted by Pequenas Histórias 22:39 ||









sábado, abril 10

MM



"You've got the perfect disguise and you're looking ok"
Quando a vida bateu no fundo cantei este refrão até ele ficar gasto:
"You've got the perfect disguise and you're looking ok".
Modest Mouse- até o nome da banda condizia com o momento: modest mouse people, pessoas ratos modestos.


Posted by Pequenas Histórias 18:44 ||









quinta-feira, abril 8

T



A certeza da primeira impressão acontece raramente , mas acontece. Um pormenor, um vislumbre. Sara trocou os apontamentos da aula com Margarida e deparou com um manuscrito que mais parecia saído da impressora, quase uma sebenta espontânea, modelarmente limpa e organizada. Margarida, por seu turno, viu uma cascata de símbolos matemáticos que representavam caricaturas dos colegas, uma astrologia feita de algoritmos.
Cada qual gostaria de ter escrito a linguagem que não era a sua e aquela aula cimentou uma amizade fulminante.
Passaram a descrever-se a si próprias como exemplo de "multicolinariedade", independentes mas sintonizadas, automaticamente recíprocas . Os rapazes mais interessantes levavam a cifra de "estocásticos", pela capacidade de renovarem estados de espiríto e de surpreenderem. Quando um estocástico penetrava as defesas e não era rejeitado, subia ao estatuto de "Student's T": um teste sobre uma amostra com um pequeno número de casos, onde todos os valores acabam por ser familiares, íntimos e onde há sempre graus de liberdade.
"Student" T fazia desejar acontecimentos. Pelo contrário, os afogueados na carreira eram baptizados de "regressões". Quando as regressões se começavam a agregar em trabalhos de grupo formavam um "cluster".

O vocabulário cresceu ao ritmo das frequências. Em Maio passou no teste da verificação. Margarida disse sim: ia nesse sábado ao Bar Irlandês no Cais do Sodré. Disse sim ao convite de António.
Nessa tarde o professor explicou-lhes como o teste estatístico conhecido por "Student's T" tinha sido descoberto através de experiências com pequenas amostras de organismos vivos para melhorar a fermentação da cerveja Guiness.
Em Dublin, Na Irlanda.


Posted by Pequenas Histórias 00:52 ||













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