PEQUENAS HISTORIAS





sexta-feira, abril 2

FANTASIA FINAL



Convencido, displicente, esperto, malandro, Nuno era o que eu chamo um aluno do "trinta e um de ouvido": assistia às aulas com ar de quem domina não só a matéria mas as partículas mais ínfimas da matéria, protões e neutrões, e é naturalmente um génio com alergia a manuais escolares.
Este génio , ficava-se pelo doze ou pelo treze nos testes, resultado do "trinta e um de ouvido".
O tema do programa era a diferença entre a filosofia do conhecimento em Kant e em Hume.
Lá lhes expliquei como para David Hume todas as associações, feitas entre uma ideia e uma sensação são consideradas associações arbitrárias, desprovidas de existência, e que o único conhecimento real é aquele que provêm dos casos singulares da experiência empírica.
De seguida, procurei esclarecer como Kant afirmava que se o conhecimento tinha origem na experiência não derivava obrigatoriamente dela. Isto porque os sujeitos não obtêm apenas uma sensação dos objectos empíricos, mas uma representação feita a partir de categorias, a que Kant dá o nome de categorias apriori. Apriori significa, no contexto da filosofia iluminista, anterior à sensação.
- Na primeira interrupção o Nuno diz-me:
- Setôra, então para Kant o conhecimento é uma coisa inata.
Inata deve ser um conceito da playstation, adaptado da biologia degenerativa do século XIX- pensei eu. O que disse foi outra coisa: expliquei que categoria a priori não é o mesmo que categoria inata; o que Kant quis mostrar foi que o conhecimento não depende apenas da nossa experiência com um dado objecto, mas sim de um dispositivo de percepção que nos permite obter uma representação desse objecto.
Neste ponto da aula fui esmagada por uma conclusão avassaladora, tão disparatada quanto lógica.
- Setôra, pode então dizer-se que o Kant foi um update do Hume.
A aula terminou pouco depois desta observação. Só me vinha à cabeça o jogo do "Final Phantasy".


Posted by Pequenas Histórias 01:19 ||









quinta-feira, abril 1

FAQUEIRO



Segundo o meu pai os avós têm muito dinheiro e não lhes faz diferença, mas desta vez é que vou ser apanhado.
À medida que tiro uma faca e uma colher, ou uma colher e um garfo, para acompanhar as visitas de domingo, o faqueiro fica mais vazio e notam-se as clareiras; percebe-se logo que já voaram muitas peças, muita prata. Era a altura exacta de parar. Cada roubo piora as coisas para o seguinte, mas ele não me dá ouvidos. Tenho estas pedras no peito, gosto dos meus avós. Quando eles se aproximam da mala da escola, a cabeça e o coração explodem e sei que vão acabar por descobrir e ficar decepcionados comigo.
São tristes os domingos; o tempo passa tão devagar.


Posted by Pequenas Histórias 01:36 ||













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