PEQUENAS HISTORIAS





domingo, março 28

OPORTUNIDADES



Oportunidades destas não se repetem. Pode uma tarde mudar completamente o destino? Matilde acreditava que sim. Tinha sido aliciada com a proposta de fazer um casting para uma agência de publicidade. Caso conseguisse passar no teste abriam-se as portas de um curso pago de formação e de uma carreira dourada: moda, cinema, televisão, capas de revistas. Mas faltou à marcação e depois disso não voltaram a contactá-la. Evitou o desafio e agora a dúvida atormentava-a: teria conseguido o lugar? Como fora capaz de atirar a lotaria para a rua? Os amigos e a família insistiam para concorrer: "abençoada agência"; "finalmente alguém via a injustiça" ; "ali a perder-se no serviço de um café de terceira categoria" ; "uma rapariga mal-empregue". Referiam-se todos ao facto de ser demasiado bonita para ficar atrás de um balcão; devia aspirar a mais, destacar-se da lama, que é como quem diz dos sumos, dos bolos, dos clientes apressados a correr para transportes públicos, dos velhos que prolongam a bica pela manhã. A beleza produzia uma obrigação, uma dádiva útil, quase um posto de trabalho. Deste modo, o elogio era também uma crítica por ter tomado opções erradas, desistir dos estudos e andar a gastar um dom natural numa ocupação baixa, vendida a um ganha pão. A beleza dividia-a entre o que era e que devia ser. Mas Matilde ia provar o contrário: estava muito bem assim, fazia exactamente o que queria, gostava de trabalhar no café de bairro.
Faltou ao casting para dar uma lição aos convencidos. Maldito orgulho.


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quinta-feira, março 25

MUDANÇAS



Tivesse Marx conhecido os carregadores de uma empresa de mudanças que transportavam móveis de um segundo andar , por um vão de escada apertado, entre as 16 e as 21 horas de sábado, e nunca teria escrito que o modo social de produção influencia a consciência dos indivíduos.
Porque há trabalhos que não são apenas esforço e injustiça: começam no esforço mas depois enegrecem até à resistência e à dor. E têm de continuar enquanto dura a empreitada à custa de alguma coisa: suor, cerveja, agressividade, linguagem obscena, insultos, mais cerveja e mais suor. O fim de semana foi subindo numa escalada de violência e atingiu o limite quando os carregadores se pegaram à pancada por causa de um desequilíbrio na esquina do primeiro andar. "Cabrão" foi o termo mais suave e, no meio de tudo aquilo, nem era chocante.
Marx foi um pensador brando que embelezou a ideia de mudança com o romantismo da dialéctica.
O modo social de produção não influencia a consciência; o modo de produção é a consciência, a linguagem, o corpo dos indivíduos.
Não há dialéctica nas mudanças.


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segunda-feira, março 22

OITAVOS DE FINAL



Quem faz o jantar não lava a louça; cada qual coloca os pratos e talheres na máquina; durante a hora de jantar a televisão está desligada. Os Monteiros acasalavam bem com regras. O tempo e a ameaça das gerações vindouras, transformaram esses princípios em trincheiras civilizacionais, torres de vigilância capazes de suster, entre o Reno e o Danúbio, os costumes bárbaros dos filhos. Claro que isto acarretava algumas consequências. Nas quartas-feiras, dia de Taça dos Campeões os rapazes deglutiam a comida como se ainda tivesse viva e pudesse com toda a certeza escapar dos pratos.
Monteiro o progenitor, desembainhava invariavelmente de um assunto com cola:
- Ontem foi lá à Câmara uma professora do teu liceu, Pedro. Deves conhecê-la.
Primeira parte, dez minutos, as equipas estudam-se mutuamente, não há registar ocasiões de perigo junto da grande área.
- Mulher estranha a professora. Sempre a saltitar com umas sapatilhas amarelas muito vistosas, sempre activa: " agora esclareça-me isto… agora diga-me aquilo"… Não parava um segundo, até cansava só de a ouvir. Assim para o magro, cara chupada, morena dos seus cinquenta anos, vestida de preto, sabes quem é Pedro?
Vinte minutos, a fase decisiva, quem dominar o meio campo controla a posse de bola e pode fazer o jogo que mais lhe convém.
- Não ouviste Pedro? Magra, com sapatilhas e roupa preta, sempre dum lado para o outro. Sabes quem é?
- Sim - disse num resmungo.
- E… então?
- É a bruxa com asas. Alex.
- Alex? É Estrangeira?
- Sim: Alex Ferguson, dá fisico-quimíca.


Posted by Pequenas Histórias 23:57 ||













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