PEQUENAS HISTORIAS





sexta-feira, março 19

TERRORISMO



- Mas o teu pai nem disse nada sobre o atentado de Madrid?
- Está já muito velho. A partir de certa idade as coisas têm outra dimensão.
- Sim, mas ficou chocado com o massacre ou é-lhe indiferente?
- O que é achas? Claro que ficou chocado. Sobretudo comovido por causa das famílias. Mas está muito velho e agora preocupa-se com o mundo mais próximo. Madrid é outra galáxia transmitida na televisão, faz parte da história do futuro para a qual ele já não contribui. Sobreviver mais um dia é um fardo pesado: as compras da casa, o jantar, o almoço de amanhã, o divórcio do filho, o neto que não estuda, a parede da sala a rachar, o amigo às portas da morte, o coração, a artrite, a coluna, os pulmões, o Multibanco, as contas a prazo, subir as escadas, sei lá… A vida dele são pequenas doses de atentados repetidos todos os dias.
Quando tiveres 87 anos vais compreender.


Posted by Pequenas Histórias 22:53 ||









quinta-feira, março 18

CUMPRIMENTOS



Bem vestida mas não excessivamente um toque, aquele toque. «Olá como está?» com voz pausada ou então: «muito prazer em conhecê-lo sou uma admiradora do seu trabalho». Demasiado quente, convexo. O importante não é o que se diz mas como se diz, asas de borboleta a veia. «Boa tarde sou a Filipa Monteiro», semelhante a um fax falado, B.I. O mais simples acaba por ser invariavelmente melhor: «Olá como está?»
Que ridículo ensaiar estas coisas. Ridículo e contraproducente. Quanto mais te esforçares por ser natural menos natural te tornas. A vontade vira-se do avesso: asas de borboleta que batem tempestades a muitos quilómetros; pequenas acções de grandes consequências. Sim. Sim. É por isso que estou nervosa caótica, porque é mais forte que eu, porque o equilíbrio vai ser desigual na próxima meia hora e vai ser injusto. Que se lixe. «Muito prazer». Só digo isso. «Muito Prazer». Quanto mais simples melhor.


Posted by Pequenas Histórias 21:44 ||









segunda-feira, março 15

QUARTETO



- Mestre, já dei voltas, pedi, implorei e não há maneira de arranjar a corda.
As palavras saíram com sofreguidão mas isso não pareceu perturbar o homenzinho escanzelado, baixo e calvo que naufragava num mar de papéis, latas vazias, pedaços de pano, aparas de carvão, crucifixos de madeira.
- Não faz mal - disse ao mesmo tempo que encolhia os ombros - Se não consegues substituir a corda do violoncelo, paciência. Reescrevo a tua parte. Já não temos muito tempo. Provavelmente vou transpor as notas graves para duas oitavas abaixo de modo a dispensarmos a corda que se partiu. Mas isso significa que tens de ginasticar os dedos. Algumas passagens… com esta humidade…
O violoncelista antecipou-se ao fim da frase:
- Eu consigo. Não se preocupe Mestre. Trate da composição que eu ocupo-me do resto. Temos lenha e cigarros uma oferta dos polacos da Camarata C. No campo andam todos entusiasmados com o concerto. Os homens nem falam de outra coisa. Até os guardas estão curiosos.
Também ele parecia transformado. Apenas o Mestre estava de tal modo absorvido por preocupações que nem tinha tempo para usufruir a excitação do acontecimento. Atraída pelo lixo, uma ratazana esgueirou-se entre as pernas da mesa e o Mestre falhou por pouco um pontapé. Havia toda uma logística para cumprir e da sua boca saíram as instruções mais urgentes:
- Está-se a acabar o papel e preciso que me agucem os bicos dos carvões porque a partitura começa a ficar borrada. São necessárias pelo menos 12 folhas para transcrever a parte do violoncelo.
O músico-ajudante pôs-se de imediato em acção:
- Dê-me uma hora e o assunto fica resolvido. Mas tem de ser papel pardo Mestre. Vou procurar do cinzento claro. Quase nem se nota a diferença.
Antes de transpor a porta da camarata deu meia volta e perguntou ao homem que tanto admirava:
- Já se decidiu se vai dar um nome à música?
O mestre levantou a cabeça com um sorriso iluminado:
- Sim. Vai chamar-se "quarteto para o fim dos tempos."



Posted by Pequenas Histórias 12:40 ||













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