PEQUENAS HISTORIAS





sábado, março 13

DILEMA



- "Pensas bem no que te disse, reflectes com calma e depois dás-me uma resposta. Já falei com a tua irmã, ela está lá em baixo na sala. Se um de vocês disser a verdade e confessar discutimos um castigo apropriado. Agora se há coisas que não suporto são mentiras. Caso não digam quem foi responsável as coisas mudam drasticamente cá em casa: Internet acabou-se, dinheiro para férias acabou-se, saídas à noite acabou-se. Pensa bem no que estás a meter. Já chega a gravidade do que foi feito e temos de pôr um ponto final no assunto para voltarmos a confiar uns nos outros."
O pai deixou-o no quarto. Pelos vistos a hipótese de se resumir tudo a um equívoco, de ter havido confusão nas contas, de efectuarem um pagamento e terem esquecido para onde tinha ido o dinheiro estava posta de parte. A irmã gamara mesmo os 60 Euros. Mas não lhe competia denunciá-la: não era bufo. E se ela não confessasse? Se não confessasse levavam os dois pela medida grande. A combinação para hoje à noite no Paradise ia logo à vida. Pelo sim pelo não convinha avisar os amigos. Mas não era justo estar a pagar pelos actos cometidos pela irmã; que ainda por cima se recusava a admitir a culpa. Num ápice descortinou o quadro completo: não confessa porque o dinheiro foi para a droga e tem medo que o pai descubra. Não confessa e lixa-me a vida nos próximos meses. Mas se ela não se importa comigo porque é que eu me hei-de importar com ela?
Reparou então que se encontrava numa embrulhada para a qual nada tinha contribuído. Todas as opções eram más. Fizesse o que fizesse saía sempre a perder. Desejou saltar no tempo, passar directamente para o próximo mês, evitar aquela casa e aquele instante.



Posted by Pequenas Histórias 13:58 ||









quarta-feira, março 10

QUARTA-FEIRA



Quando rompeu com o namorado começou a duvidar que o 4 fosse efectivamente o número da sorte. Aconteciam sempre coisas intensas à volta do 4 mas a influência benéfica poderia muito bem ter o sinal contrário. Pedro tinha deixado de gostar dela quebrando um feitiço iniciado em 4 de Abril e a certeza de ter encontrado uma alma gémea. A expectativa de ter sempre boas notícias nos dias 14 e 24 de cada mês também lhe pareciam agora crenças disparatadas. Foi a uma cartomante e experimentou o Tarot. O quatro de copas saiu-lhe na casa da vida e ficou a saber que o algarismo não levantava grandes augúrios: o intervalo da 3ª para a 4ª nota, na escala Maior, era considerado o "diabo na música" pelos antigos e a doutrina pitagórica considerava o quatro um algarismo fatídico que destruía a perfeição do círculo representada pelo 3. Em toda a linha as suspeitas confirmavam-se: aquele dígito marcava a existência mas como símbolo da desgraça, da imperfeição, do diabo. Era mais uma quarta-feira.


Posted by Pequenas Histórias 09:35 ||









segunda-feira, março 8

JULGAMENTOS SALOMÓNICOS



Apoiou-se em mais um cigarro:
- Fazemos assim, deitamos uma moeda ao ar: se sair caras a Presidência é para nós e se sair coroas é para vocês.
O outro dirigente recostou-se na cadeira sem parar de rabiscar figuras:
- Moeda ao ar não me parece francamente o processo de decisão indicado.
- Mas é preferível do que concorrermos em listas separadas. E uma vez que ninguém abdica do lugar de presidente… uma vez que não chegamos a acordo ao fim de três horas de discussão…
O outro parou de escrevinhar:
- Tira-se à sorte? Já mediste bem as palavras? Os associados vão votar, convencidos que exercem um direito de opção, depositam a sua confiança nos candidatos e afinal esses candidatos são escolhidos à sorte: tanto podia ser este como aquele... É a mais completa inversão de valores. Ora nós não podemos transformar uma eleição numa escolha arbitrária. Imagina que alguém descobre como as coisas se passaram. Com que cara é que ficamos?
O fumador coçou atrás do pescoço. Depois chegou-se à frente e contra argumentou:
- De qualquer modo os eleitores participam sempre em escolhas feitas por outros. Votam em listas e quem faz as listas somos nós. Lamento mas é assim que as coisas funcionam. Vivemos numa democracia representativa e não numa democracia directa. Além disso esqueces um pormenor fundamental: a partir do momento em que alguém mostra vontade em eleger determinado presidente o que era uma escolha aleatória converte-se numa escolha intencional. A última palavra cabe aos eleitores. Eles eliminam o acaso.
A ideia era razoável e estava satisfeito por ter utilizado as palavras "aleatório" e "intencional". O outro, porém, não se deu por vencido:
- Segundo esse teu raciocínio, se o lançamento da moeda favorecer o pior candidato, os eleitores vão acabar por julgar essa decisão.
O fumador concordou mas o dirigente fez questão de repetir a pergunta de modo a obter uma resposta claramente audível:
- O candidato é mau, portanto não o elegem. É isso?
- Em princípio, sim.
- E quem é o responsável pelo fracasso? A moeda?


Posted by Pequenas Histórias 23:37 ||







HOSPITAL



A tarde chupa grilos de madeira, o sol separa-se em duas arestas, uma metade flores brancas, outra metade fuligem. Tirem-me as tesouras do braço quero-me levantar tenho muito trabalho para fazer não quero estar deitada. Esta casa não é a minha casa; esta menina que diz ser a minha filha não é a minha filha; esta mobília não tem cor; estes passos não têm querer.


Posted by Pequenas Histórias 00:06 ||













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