PEQUENAS HISTORIAS





sexta-feira, março 5

TOM DE VOZ




"Com tanta miséria e maldade, as atrocidades que já foram cometidas, a fome, com isso tudo, como pode haver um Deus no Mundo? Quando penso nos acontecimentos passados com os judeus no tempo de Hitler, na Sida em Àfrica até me revolta ouvir falar em Deus. Desculpa o tom de voz mas fico emocionada. Tamanha crueldade elimina qualquer crença. Nem quero ouvir falar disso. Deus é um expediente que leva as pessoas a aceitarem o inaceitável, a conformarem-se: um pretexto para a resignação. Deus o tanas, isso é que é."
Sara bloqueava em três temas : Deus e a religião, maridos que tratam mal as mulheres; pessoas que mentem deliberadamente.
Não era uma rapariga doce.


Posted by Pequenas Histórias 00:14 ||









quarta-feira, março 3

LINGUAGENS SECRETAS



- "Vocês todos falam uma linguagem secreta que eu só muito recentemente compreendi"- Marco exaltava-se sempre no fim das frases como se estivesse a assistir à queda do império romano. Fez uma pausa, esbracejou um gesto largo e continuou:
-" Por exemplo, tu disseste "queres um café?" , colocaste as palavras "Cá" e "Fé", portanto sob a capa de uma conversa inocente e trivial o que querias na verdade perguntar era se eu tinha fé, fazendo-me de parvo. É ou não verdade? Olhaste para o Luís. Eu vi. Olhaste para ele! Estavam a trocar uma mensagem sobre mim, divertidos com o palerma e a pensar que eu não compreendia nada. E este género de coisas está permanentemente a acontecer, a diferença é que agora não me enganam."
Pedro estava sobre fogo cruzado e sabia que não convinha irritar o outro , limitou-se por isso a uma frase apaziguadora dita num tom suave:
- "Isso é a sério? Acreditas mesmo que as pessoas trocam entre si linguagens secretas? Que falam uma coisa mas querem dizer outra? Que o mundo está a conspirar nas tuas costas?"
- " Com-ex-pi-rar …? Cos-tas? - Marco começou a soletrar alto tentando descobrir a linguagem secreta, mas desta vez tinha dificuldades em pôr a claro o fio condutor. Ao fim de uns segundos levantou-se e fez um esgar de escárnio:
- " cons-pi-rar-nas-cos-tas" Aãaannn… Tenho de reconhecer que essa foi uma jogada inteligente: usaste o meu apelido (Costa) para insinuares que estou a pirar da cabeça: COSTA-COM-PIRAR. Mas eu vejo as coisas. Agora compreendo, sacanas.


Posted by Pequenas Histórias 19:25 ||













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