PEQUENAS HISTORIAS





sábado, fevereiro 28


PRAIA DA CONSOLAÇÃO



Tenho de voltar mas não há nenhum sítio para onde me apeteça voltar tenho ao menos parar um pouco já conduzo há três horas seguidas depois da Ericeira só voltei a apanhar a via junto ao mar quase em Leiria nem tenho fome nem nada mas não posso conduzir eternamente a vida vai andando todos os dias no piloto automático e de repente há um momento como agora em que se desliga e tudo desaparece e tudo fica em aberto e as coisas tornam-se cruas como elas são a dor é o grande bálsamo do espiríto que se lixe continuo para norte também já é tarde para voltar como é que dizia aquele poema "o mar perde-se…" não me lembro bem acho que dizia "o mar é perdido..." sim é isso: "O mar. O mar é perdido desde a sua baía até ao coração." O livro tinha uma capa cor de rosa e já marcou momentos bem difíceis lembro-me sempre do raio do poema quando ando sozinho à beira do precipício e vou para o pé do mar sem qualquer razão.
Tenho de comprar um spray.





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sexta-feira, fevereiro 27

ESTIGMATISMO E SISTEMA MONETÁRIO



Ao meu lado o velhote pagou o café com cinquenta cêntimos e deu uma moeda de dois Euros de gratificação ao empregado. Estava ao balcão e não parecia propriamente um representante das classes ociosas, mas antes um reformado para quem a mudança do sistema monetário coincidira infelizmente com o agravar do estigmatismo e da esclerose. Discretamente tentei avisá-lo de que acabara de dar 400 escudos de gorjeta por uma bica servida ao balcão e o rosto esticou-se-lhe até as sobrancelhas arranharem as rugas da testa. As suspeitas estavam certas. Uma revoada de energia tomou-o de feição e acordou-o de tal forma que até deu ideia de aumentar em altura. Agilmente deu meia volta e gritou:
-" Sr. António, não se esqueça: está pago até ao final da semana".


Posted by Pequenas Histórias 23:23 ||







PROGRAMAÇÃO TARDIA



- "As nossas conversas estão-se a repetir".
A resposta veio no mesmo tom:
- "Estão-se a repetir porque tu és incapaz de reconhecer evidências e não admites ser criticada. Tomas qualquer observação como um ataque e assim é difícil conversar".
Era sexta-feira, as crianças estavam deitadas, a louça lavada, a cozinha arrumada.
- "Tudo se resume a uma questão de culpas."- A frase foi acompanhada do gesto de levantar pontuando o desfecho de duas horas de discussão. Ao entrar na casa de banho a mulher sabia porém que faltava a última cena: ela perguntava se o marido se vinha deitar; ele respondia que não estava com sono, ficava vidrado na televisão absorvendo concursos, publicidade, noticiários, entrevistas, resumos desportivos, filmes e tele-vendas , tudo até liquidar pela exaustão qualquer hipótese de contacto físico naquela noite. A política era a continuação da guerra por outros meios.
Saiu da casa de banho já em pijama. Aconchegou-se no sofá com a manta de lã e perguntou:
- Que filme é que dá hoje?


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segunda-feira, fevereiro 23

PEQUENO SACRIFÍCIO



Filipe
Vê lá se consegues baixar ao Hospital e se vens ter onde eu estou. Tenho já o esquema montado e aguardo a tua chegada. Faz o que o Midões recomendou: um quarto de hora antes de ires à inspecção arranjas um esquentamento com sabão. Não tenhas medo que vale a pena pois sempre são quinze dias de sossego por um incomodozinho que se trata rapidamente. Chegou agora mesmo um carregamento de morfina novinho em folha; qualidade garantida a cem por cento. Vale o pequeno sacrifício que te estou a pedir, um pequeno passo para o paraíso e um pequeno passo para a liberdade. Esquece a conversa do tenente e do capelão, a honra e a moral. Lembras-te da frase "os proletários só têm a perder as suas cadeias"? Essa frase é agora.


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AUTOESTRADA



Partiram as névoas mais constrangedoras. Ficou um halo de respiração demorada. Na autoestrada, ontem à noite, havia faunos no ar. Juro que os vi. Não cheguei a partir e a chegar. Eu vivo na autoestrada. Talvez seja eu mesmo o fauno.




Escrito por Luís Carmelo no Miniscente a uma Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004


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O CHEIRO do MEDO



A minha mãe tentava fugir no meio da ponte mas o carro que a perseguia não desarmava. Quando atingia os 100 quilómetros por hora a escolha era entre ser apanhada pelo chacal do meu pai e a possibilidade de acidente: de uma maneira ou de outra a morte aguardava-a. Sonhei repetidas vezes este pesadelo e acordava sempre no momento em que o carro embatia num dos rais de protecção, acossado até ao último momento. Despertava tão aflita que a empregada da casa tinha pena de mim e ia buscar folhas de mirra, de alecrim e de salva, colocava essas folhas num tacho de barro, ateava-lhes fogo e obrigava-me a respirar os vapores enquanto recitava uma ladainha para purificar os espíritos. Aos poucos voltava a respirar normalmente e a agitação desaparecia. Mas uma coisa ficou ligada à outra , algo que descobri anos mais tarde ao estudar a teoria do reflexo condicionado de Pavlov. Este cientista conseguiu, no princípio do século, que um animal antecipasse a dor física proveniente de um choque eléctrico, associando um som a essa sensação. Eu antecipo a desgraça pelo cheiro.


Posted by Pequenas Histórias 14:41 ||













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