PEQUENAS HISTORIAS





sexta-feira, fevereiro 20

REFERÊNCIA CIRCULAR



O tema do programa era a acção sobre a acção; as referências uma série de pensadores cujas teorias sublinhavam o papel dos dispositivos sociais que operam um constrangimento sobre o universo de possibilidades dos indivíduos, seja pela redução do seu leque de escolhas seja pela criação de automatismos nos comportamentos.
"Dúvidas quanto a esta matéria?" - perguntou a professora ao mesmo tempo que recolhia os acetatos.
Houve um momento de silêncio e um entreolhar recíproco. Do meio da sala surgiu um braço no ar acompanhado de um sorriso: "o facto dos alunos poderem apresentar as dúvidas no final da aula deve ser considerado um constrangimento sobre as possibilidades de escolha ou um automatismo do comportamento?"


Posted by Pequenas Histórias 21:54 ||









quinta-feira, fevereiro 19

NA FRENTE*



Minha Adorada Judite

Eu continuo na mesma, embora aborrecido por causa da licença, que continuo sem saber quando a hei-de gozar, pois nada resolvem indo apenas por caminho de ferro os generais e oficiais deputados. Trazem-nos outra vez a fazer trincheiras e trazem-nos cheios de fome. Um pão que pesa um arrátel é dividido por seis e por oito. Há uma semana que não comemos nada de jeito. De noite faz um frio de rachar e no meio da porcaria da lama faltam os cobertores. Mas para os que estão emboscados na retaguarda há de tudo. A moralidade é esta. Tem havido muita arbitrariedade e eu a cada dia que passa vou-me abaixo. Tinha direito a ir à terra já vai para dois meses e continuo à espera da ordem de marcha como um trapo. Até me custa imaginar o dia em que vou voltar a descer na estação. Graças a Deus que tenho bons camaradas. E que te tenho a ti. Quando te escrevo parece que tudo começa a ficar melhor e volto a ter esperança de novo. As coisas têm de se compor. Prometo-te que dentro em breve estarei em casa, de uma maneira ou de outra. Recebe um beijo do teu Manuel.


* baseado em transcrições de uma carta escrita por um militar do Corpo Expedicionário Português, em 1917, na Flandres


Posted by Pequenas Histórias 19:51 ||









segunda-feira, fevereiro 16

ETERNO RETORNO




Tinha 12 anos, e tinham-me emprestado um computador, e por mim próprio aprendi a programar BASIC. Uma das coisas que sempre me tinha fascinado, eram os números primos... De modo que, programei o computador para gerar números primos de uma maneira muito básica, a partir de uma progressão aritmética de impares (o único número primo par é o 2) e testava a primalidade desses números... Escusado será dizer, que ao fim de algum tempo, o computador praticamente parava... No entanto, a memória RAM não era toda utilizada... Havia algo de fundamentalmente lento no algoritmo que eu criara. Tinha notado algo acerca da própria natureza dos números primos!!! Mas deveria haver alguma maneira mais eficiente, mais rápida, mais sensata de calculá-los... O problema obcecou-me... Enquanto dormia os números chocavam-se nos meus sonhos. Quando visualizei pela primeira vez um método mais rápido, foi como se abrissem as portas da criação e trombetas tocassem por todo o mundo! E quando o implementei, funcionava!
Anos mais tarde, consegui arranjar um livro sobre Teoria dos Números, que é a parte da matemática que estuda as propriedades intrinsecas aos números e descobri! Surpresa de adolescente! O método já era conhecido. Tinha sido descoberto por um dos grandes matemáticos da antiguidade. Chamava-se Eratóstenes. E o algoritmo é conhecido por Crivo de Eratóstenes. Nesse momento tive outra epifania... Eu e Eratóstenes, separados de séculos, tiveramos a mesma ideia.


Este excelente texto foi escrito por André Esteves no BLOG de uns ATEUS a propósito do nascimento de Darwin Há 195 anos.


Posted by Pequenas Histórias 12:28 ||













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