PEQUENAS HISTORIAS





sábado, fevereiro 7

CONCEITOS e EXEMPLOS PRÁTICOS




Há crianças, adoráveis, principezinhos de cabelo louro e cara redonda, com passinhos desajeitados que fazem saltitar uma camisola de lã azul por onde saem uns dedos de porcelana e onde entra um sorriso ensonado. Dirigia-me à mercearia, próxima de minha casa e, a uns passos de mim, seguia um destes anjinhos adoráveis com ar compenetrado na marcha, de mão dada com o pai, igualmente orgulhoso do seu primeiro rebento. Olhei para trás e fiz-lhe um sorriso. Apenas nesse instante a criança reparou em mim; virou a cabeça para cima de modo a fixar o olhar e a atenção do adulto que lhe segurava os dedos e disse : "Pai, olha! Uma gaja boa". Pela minha parte iria jurar que o catraio não tinha mais de três anos: Era surpreendente que soubesse articular uma frase sem comer as sílabas, quanto mais uma frase daquelas. Tão desconcertante, tão desconcertante que dei uma gargalhada e olhei instintivamente para o pai. O homem desejou que a terra abrisse um buraco para se enfiar por aí abaixo; desviou os olhos para o chão e tatamudeou algo para silenciar o miúdo.
Sem efeito: a criança tinha finalmente descoberto o significado da coisa que o pai lhe ensinara; conseguiu ligar o abstracto da linguagem ao concreto da imagem e estava entusiasmada com o sucesso desta descoberta. Não se calava. "Olha, pai! Uma gaja Boa. Uma Gaja Boa! Uma gaja boa , pai! Olha pai! Gaja Booooaa!" Trinta metros de piropos.
Levava uma saia aos quadrados azuis e roxos que me caía por cima do joelho. Já está muito coçada, sem cor e teve de ser cosida por causa das traças. Apesar disso, fico sempre com uma ponta de vaidade quando a uso.


Posted by Pequenas Histórias 16:09 ||













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