PEQUENAS HISTORIAS





domingo, janeiro 18

INJUSTIÇAS



Há dois tipos de injustiça: a primeira tem a ver com a observação do mundo, o abandono de regiões e países à mais ignóbil miséria, os negócios e compadrios que criam situações obscuras mas intocáveis do ponto de vista do direito, as declarações de altos dignatários que serpenteiam entre a encenação publica e o que se sabe que eles pensam na realidade. O segundo tipo de injustiça é individual e remete para a promoção dos medíocres à custa do esforço alheio, para os esquemas baixos que vingam no comportamento social, para os universos de ninharias, intrigas e invejas que entopem vidas durante anos, para a retórica da libertação e da responsabilidade colada a simples justificações de pessoas que têm dificuldade em conviver com a diferença dos outros.
Em situações extremas, a injustiça do mundo e a injustiça do indíviduo podem ficar muito próximas. O infortunio humano torna-se então indissociável do infortúnio da humanidade. Consoante o grau das acções cometidas, são apelidados de excêntricos, perturbados, desiquilibrados, loucos, criminosos, terroristas os indíviduos que ultrapassaram essa linha racional de separação.
Já me chamaram alguns destes nomes.
Quero bem que eles se fodam todos.


Posted by Pequenas Histórias 05:26 ||









segunda-feira, janeiro 12

O ROUBO



Os amigos ainda estavam a digerir a última graça quando Arsénio deu um golpe rápido de rins e segurou o braço do empregado de mesa: "Olhe que eu hoje não me vou embora sem levar um destes copos". Apontou para os estilizados copos do café que terminavam com um monograma gravado no topo e uma cercadura de dourado, nos quais se reuniam três qualidades: objecto de coleccionador, vestígio arqueológico de época, emblema da distinção do estabelecimento. Um tal aviso não parecia porém ameaça suficiente. Sem abrandar a gincana à volta das mesas, o empregado limitou-se a sacudir a mão e a sorrir para o grupo:
-"Os copos quando vêm para a mesa são contados senhor Arsénio. É impossível roubá-los sem nós descobrirmos logo".
Momentos depois uns clientes pagaram a despesa ao balcão. O desafiador projectou o tronco para a frente como se tivesse à espera da oportunidade. Semi-curvado alongou-se em direcção à mesa abandonada; com instinto de predador camuflou dois copos no bolso interior do sobretudo e regressou à posição inicial.
Os olhos convergiam com curiosidade para Arsénio no momento em que o empregado se aproximou. Agora já não parecia afogueado na pressa do serviço; algo se tinha tornado mais importante que o comércio de bebidas, cafés, meias de leite, tostas e torradas. Chegado ao grupo pousou a bandeja:
"Olhe senhor Arsénio, os dois velhotes da mesa do canto é que roubaram os copos. As coisas acontecem de quem menos se espera! "


Posted by Pequenas Histórias 19:51 ||













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