PEQUENAS HISTORIAS





sexta-feira, janeiro 9

ARREPIOS DA PRIMAVERA



A Primavera causa-me arrepios. Arrumei definitivamente a minha relação amorosa com um homem casado no princípio de Março e o massacre das chamadas telefónicas anónimas começou no fim de semana seguinte. A coisa funcionava com uma precisão de relojoeiro pois sucedia exactamente na altura em que era mais penoso acordar, ir aos tropeções até à sala, levantar o auscultador e observar, do outro lado, o silêncio que transpirava maldade. Gritava frases ordinárias: desespero concentrado, pesadelos escuros, vontade de vingança. A raiva foi trepando até atingir um ponto culminante em Abril. Depois começou a perder o dramatismo e a transformar-se só numa agressão desagradável: nojo e desprezo. A opção de passar a desligar a tomada à noite resolveu o problema do sono embora às custas do desassossego e incerteza do período diurno.
Às vezes reconfortava-me com o pensamento de que uma pessoa disposta a uma perseguição tão obsessiva também não tinha vida própria. O massacre começou num fim de semana de Março e os telefonemas anónimos pararam depois de ter sido submetida a uma operação com internamento no Hospital. Tinha passado mais de um ano e continuava sem ter a certeza absoluta de quem era responsável por esta violência cobarde: encurralada decidi confrontar o antigo namorado mas ele pareceu convincente na indignação e até se mostrou disponível para ajudar. De qualquer modo, nunca fui grande avaliadora de pessoas, talvez por ter um fraco instinto de sobrevivência e total ausência de espírito de competição.
A Primavera causa-me arrepios.


Posted by Pequenas Histórias 04:47 ||













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