PEQUENAS HISTORIAS





quarta-feira, dezembro 24





v.d. História de Natal


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segunda-feira, dezembro 22

AS NOTÍCIAS DO NATAL



A tolice do Natal é deprimente. Falsa esperança. Hipocrisia de ocasião. Generaliza-se a obrigação de embrulhar os sentimentos numa espécie de apoteose moral. Já experimentaram muita coisa comigo. O Natal é mais uma tentativa para ver se quebro. Esperam que me lembre dos presentes, do vinho do Porto, da família e que amoleça com tudo isso; esperam que deixe cair uma palavra adocicada e me mostre vulnerável. É escusado: na minha cabeça salto de dia 23 de Dezembro para dia 26, observando com curiosidade a agitação alheia.
O guarda Fernandes trouxe-me três fatias de bolo rei certamente na esperança de vincar um raro momento de comunhão entre o prisioneiro e o carcereiro. O cristianismo é uma religião formidável: serve para tentar verbalizar o que nunca existe. Nem ele adivinha as razões porque apreciei esse presente. Já passava das dez da noite e o homem abreviou as normas entrouxando as fatias num jornal. Escapou-se-lhe que nós, os presos políticos, estamos proibidos de qualquer contacto com o mundo exterior, um descuido tipíco da quadra.
Calhou-me a abertura das notícias nacionais e as páginas desportivas. Que saudades de folhear um jornal. Já nem conhecia alguns clubes da primeira divisão. Fiquei a saber que os autocarros de dois andares iam desaparecer e que a linha do metropolitano estava em obras para ampliação; que a televisão ia emitir, no próximo ano, a partir das 10,00 horas da manhã; que o cardeal patriarca continuava a fazer as suas homílias e o Presidente do Concelho o imitava com inaugurações de creches e postos de saúde. O Natal dos Hospitais, por seu turno, tinha-se transformado numa maratona de cinco horas de espectáculo.
As notícias eram triviais e insignificantes. Mas o simples facto de ter um jornal nas mãos causava-me uma sensação estranha. Parecia entusiasmado com a existência de novidades, de reportagens, acontecimentos. O que saía fora do meu alcance adquiria inesperadamente uma aura de maravilhoso, como se fosse uma criança. Mas este fascínio desapareceu com a repetição das leituras. Reconheci então os sinais de desiquilíbrio provocados pelo isolamento. Um homem não quebra por um lado, mas acaba por quebrar por outro.


Posted by Pequenas Histórias 22:06 ||













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