PEQUENAS HISTORIAS





domingo, dezembro 14

A SAÍDA



A queda na banheira foi a queda do mundo. Nunca mais recuperou completamente da perna esquerda. A preparação e o esforço de uma saída à rua deixaram de compensar os resultados. O acordo com o rapaz do minimercado resolveu a logística da mercearia, do talho e da farmácia e, aos poucos, a vida foi-se concentrando em três assoalhadas, no telefone e na televisão. A visita dos bombeiros, rapazes novos que a vinham buscar para a fisioterapia e a traziam de volta, tornou-se consequentemente um acontecimento festivo. Às terças e quintas, D. Vitorina começava a arranjar-se logo de manhã de modo a estar convenientemente aprumada para a ocasião. Já tinha ganho a confiança dos bombeiros, interpretando anedotas de outros tempos e revelando uma graça que ela própria desconhecia. Hoje era o dia de avançar outro passo. Uma velhota meio inválida e doente nada tinha a perder. Na viagem de regresso, disse-lhes que queria atravessar a cidade com as sirenes e as luzes da ambulância ligadas no máximo. Ao entrar finalmente na sua rua, com o aparato de um Presidente, D. Vitorina esforçou-se por manter a compostura e por domesticar o riso. Um brilho clandestino enchia-lhe o rosto. Teve de apertar os lábios com força.



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quarta-feira, dezembro 10


ALMOÇOS GRÁTIS



Ao autografar mais um livro deparei-me com um homem bem aparentado. Dedicou-me uma atenção calorosa e vários elogios de modo a prolongar o acto de comunhão do escritor com o leitor muito para além do razoável. No momento de ceder o lugar na fila à pessoa seguinte, insinuou um engodo previamente escrito em inglês. Continuei a assinar exemplares mas ia-o vendo a circular pela livraria com uma autoconfiança que me marcava como caça grossa em coutada fechada: eu era uma estrangeira, insuficientemente célebre para beneficiar de protecção de um círculo social, sozinha, com um quarto de Hotel e uma sede editorial como âncoras de referência. A sessão ia-se aproximando do fim porque na Suécia a hora de recolher soa precocemente na cabeça das pessoas. Expliquei rapidamente a situação ao único jornalista que conhecia, pedindo-lhe para me acompanhar no final, de braço dado, numa manobra estratégica de diversão. O embuste funcionou.
Passado pouco tempo, compreendi que ao livrar-me de um problema tinha arranjado outro ainda maior. Sempre detestei a frase " não há almoços grátis". Fiquei a detestá-la ainda mais ao compreender como era verdadeira.


Posted by Pequenas Histórias 17:39 ||













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