PEQUENAS HISTORIAS





terça-feira, novembro 25

A LICENÇA



A primeira coisa que me passou pela cabeça é que eles eram malucos. Vi a banca mas não parei. Continuei a descer as Ramblas de Barcelona observando os vendedores de colares e pulseiras, os fabricantes de artesanato, os actores paralisados em estátuas, os músicos: uma fileira contínua de comércio e animação.
A certa altura voltei para trás porque precisava de confirmar se o cérebro tinha compreendido correctamente a informação enviada pelos olhos . Os dois malucos continuavam exactamente no mesmo local: sentados no empedrado, atrás de um pano verde estendido no chão, entre um vendedor de produtos marroquinos e um caricaturista de rua. O pano fazia as vezes de banca improvisada e os dois homens divertiam-se a estudar os transeuntes. O insólito é que o único material que parecia estar "à venda" era uma banana e um cartaz. Reparei que as palavras do cartaz estavam escritas em catalão e não em castelhano. Dizia o seguinte: "SE CAMBIA UM PLATANO PER INFORMACIÓ".
Naquele local de passagem iam-se agrupando e desfazendo grupos de curiosos que perguntavam as coisas mais díspares: " para que era aquilo?"; se " a banana estava mesmo boa para comer?"; "que tipo de informação é que pretendiam?" Do outro lado da barricada as respostas flutuavam na mesma largura de banda: ora diziam "isto é para um estudo sobre a psicologia humana"; ora mudavam para "Isto é um teste para um programa da TV" ora acrescentavam "procuramos uma informação capaz de mudar a vida das pessoas." O certo é que ninguém se oferecia como voluntário para a troca natural de um "plátano" por uma informação.
Também eu me sentei a observar. Passada uma boa meia hora, dois polícias acercaram-se da banca e solicitaram que lhes fosse mostrada a licença da "municipalidade". Espantado, um dos "vendedores" perguntou: "o que é isso?" A autoridade encarregue da fiscalização esclareceu que todos os feirantes que ali estavam tinham previamente solicitado uma licença de venda junto da Câmara de Barcelona.
Com um sorriso nos lábios o homem da banca levantou-se. Fez um gesto de alívio e uma vénia e entregou a banana ao polícia:
"Era exactamente essa a informação que nós precisávamos".


Posted by Pequenas Histórias 12:02 ||













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