PEQUENAS HISTORIAS





quarta-feira, outubro 15

O JOGO DAS CORES



Expulsaram-nos do bar por causa dos desacatos. Tinha misturado whisky com absinto e ginginha e portanto devia estar um misto de desordeiro com intelectual e marialva. Jorge era o único do nosso grupo que se mantinha suficientemente sóbrio para não andar a atropelar caixotes de lixo. Lembro-me que, a certa altura, embati violentamente contra um candeeiro e fiquei estendido no chão. A morte exercia um fascínio perturbador sobre todos e inventámos nessa noite a roleta das duas cores. Consistia nisto: na Avenida da Liberdade, a dez metros dos semáforos, quando o sinal ficava vermelho para os peões libertava o verde para nós e devíamos atravessar a via, em ambos os sentidos, com uma passada regular. Quem vacilasse perdia. Nem sequer pensámos na possibilidade de ter um acidente de que resultasse ferimentos graves. A questão resumia-se a duas cores: viver ou morrer. Jorge quis boicotar o jogo, mas acabou por alinhar.
O primeiro chegou ileso ao outro lado e esse facto tornou a travessia irreversível. No entanto, nem todos conseguiram manter um ritmo uniforme e notava-se que não se abstraíam por completo da proximidade dos automóveis. Por quinze segundos eu fui um Deus, avançando intencionalmente devagar. E quando tudo acabou fui o único que repetiu o desafio fazendo novamente o percurso em sentido inverso. Gritava: "Viva la muerte".




Posted by Pequenas Histórias 11:13 ||













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