PEQUENAS HISTORIAS





sábado, outubro 11

O LIVRO DE ÍSAIAS




David costumava aparecer na nossa casa ao fim da tarde. Um dia estava a concertar um carro de brinquedo, experimentando as pilhas em diferentes posições. Como a coisa não funcionava veio pedir-me ajuda. Um tal pedido obrigava-me a interromper o estudo e por isso respondi-lhe que aqueles carros eram de um modelo novo e que só trabalhavam a gasolina. Do alto dos seus sete anos, com a cara bronzeada de andar à solta, ouvi-o dizer :
"Ai dos que se têm por sábios e se julgam espertos". E rematou com os braços caídos: "Isaías; cinco; vinte e um"
Apagou-se-me, de repente, a concentração.
-"o que é tu disseste, David?"
Repetiu a frase e a referência estava correcta. Apesar de reconhecer com dificuldade as letras, sabia já citar corretamente a Bíblia.
Por essa altura habitava num pequeno aglomerado de casas isoladas e só o meu marido sabia guiar. Tive de andar cerca de um quilómetro, a pé, para lhe comprar pilhas novas na única mercearia aberta nas redondezas.


Posted by Pequenas Histórias 23:50 ||









sexta-feira, outubro 10

NERVOS




A mota buzinou furiosamente. Podia ultrapassar o carro mas preferiu iniciar uma cruzada particular. Acercou-se da condutora, lado a lado. Começou a insultá-la. O carro parou e ele preparou-se para o confonto sossegando a mota no pé de apoio, bem à frente da viatura para que a mulher não tivesse veleidades de fugir. Saiu uma grávida do carro que lhe desabou a dar murros.


Posted by Pequenas Histórias 17:06 ||







BUGANVÍLIAS



Meu Querido Irmão
Os homens terminaram ontem as obras e limparam o entulho.
No próximo verão, tu a Eugénia e os meninos já podem passar aqui toda a temporada de férias. Estou-te muito agradecida. Havias de ver a casa, com as paredes sem manchas e tudo com um aspecto novo. No sábado vem cá o António podar as macieiras para o Outono. As minhas costas não perdoam e não aguento subir ao escadote. Mas estou de boa saúde e vou-me animando. A senhora da Previdência assegurou-me que lá para Março começam a pagar-me a pensão. Nessa altura, recebo os retroactivos. O que me custou muito foi terem cortado as buganvílias da janela da cozinha. Mas teve de ser.
Manda um abraço à Eugénia e diz aos meninos que o tanque está outra vez cheio de sapos.
Um abraço da tua irmã.
Ester


A CÁRIE



Por causa da cárie, a D. conceição teve de interromper a quinta feita e ir a Lisboa. Tinha tomado um antibiótico, por auto-medicação, apesar dos protestos da filha, de 22 anos. Com dores ou sem dores , era preciso regressar ao restaurante Marcos a tempo de ajudar a servir as mesas. Às 12,15 horas ainda tinha seis pessoas à frente na espera para o médico. Ligou o telemóvel e pediu para darem o recado ao patrão: que ela se ia atrasar. Um alívio por não ter sido ele a atender directamente. Regressou com a boca dormente, a ordenar pensamentos. Porque raio tinha de se justificar? Logo ela que nunca faltava? Será que não tinha direito de ir ao médico? Se com dores de dentes trabalhava pouco, e mal, devia tratar-se.
Quando entrou , ele deslizou o olhar e disse secamente "não é preciso conversas. Vá ajudar a São." Quis dizer a resposta previamente ensaiada, mas os musculos da face não ajudavam: a anestesia paralizava os sons. Saiu um vomitado de palavras sem nexo. Envergonhada foi mudar a camisa e vestir o avental.




INQUIETAÇÃO


É a segunda vez que passo aqui e as luzes de casa dela estão apagadas. Nem sei bem o que isto significa. Está bem que só passaram dois dias. Mas este silêncio e o sair à noite... Não sei. Por outro lado, pode ter ido conversar com uma amiga. Jantar Fora. Nada está perdido. Na volta, foi mas é ao centro de fotocópias fazer acetatos para as aulas de amanhã. Enfim , não é comportamento muito próprio de uma pessoa apaixonada, mesmo para quem deixa tudo para a último: fazer acetatos!
E se há mais alguém metido na história? Não... isso percebia-se. Quem sabe se ela não está neste momento a tentar contactar-me? Liga para o telefone fixo e não me encontra em casa. Que raio de coincidência! Bom, mas se isso por acaso acontecer vai ficar decepcionada. Tem um impulso , toma a iniciativa e depois não encontra resposta do outro lado.
O que irá pensar?


Posted by Pequenas Histórias 16:52 ||













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